Henrique Miura, Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:
"Melhor do que ver Roman Polanski ressurgindo
das cinzas depois do frustrante “O último portal”; é
ver que com “O Pianista”, ele conseguiu – talvez – realizar
seu melhor filme, juntando com extrema felicidade todos os elementos que o consagraram.
Eu fazia parte de um seleto grupo que achava que o Polanski era um ex-cineasta
em ação, aquele cidadão que realizou o inesquecível
“Chinatown” e o não tão inesquecível “O
Bebê de Rosemary”, já estava acabado, sem disposição
errado
para voltar aos bons tempos. Outro motivo que fez com que eu não me animasse
muito com a proposta de “O Pianista” foi o fato dele ser mais um
filme sobre o holocausto, tema explorado em diversas décadas passadas,
e saturado na década de noventa, onde “A Lista de Schindler”
e “A Vida é Bela” ; se consagraram. Leigo engano, ainda bem.
Ao final, percebi que esses dois pensamentos foram destruídos em duas
horas e meia de massacre, ódio, vida, família e soberania. Para
quem achava que Polanski jamais seria capaz de realizar algo tão bem
seqüenciado como o desfecho de “Chinatown”, fui surpreendido
por cenas aterrorizantes, em um plano/seqüência magistral; podendo
citar inúmeros exemplos, como a cena onde um velho é jogado pela
janela, e quem foi socorrê-lo, acabou sendo brutalmente fuzilado. Já
o fato de ser um filme sobre holocausto – detalhes fazem com que ele não
seja apenas “mais um”. O fato de Polanski realmente ter vivido na
pele a perseguição ocorrida em Varsóvia, contribui bastante
para o relato honesto e chocante que vemos; além disso, existe muita
responsabilidade e complexidade política, por se tratar de uma história
na visão de um judeu que vive nas piores condições humanas
depois que se iniciou a perseguição irracional. Wladyslaw Szpilman,
o pianista polonês protagonista do filme, realmente existiu. O roteirista
Ronald Harwood adaptou aqui as memórias do pianista (com o lançamento
do filme, o livro estará sendo lançado brevemente aqui no Brasil),
que faleceu em 2000. Tudo o que se passa na tela, é um relato verídico,
com os devidos requintes cinematográficos. Não pelos requintes,
mas sim pela honestidade, não sabemos se Szpilman foi um homem de sorte
ou de azar. Antes da perseguição assídua dos nazistas,
ele era um pianista que tinha uma vida normal ao lado de sua agradabilíssima
família. Com a guerra declarada e a Polônia sendo dominada pelos
alemães, restou para os judeus poloneses, guetos sujos e fedorentos –
para os que não fossem friamente fuzilados. E nisso, a família
do pianista foi destruída, separada por um golpe de sorte (ou azar) de
Szpilman. Sozinho na perdição de uma Polônia já detonada
e Varsóvia devastada pelos nazistas, o pianista precisa sobreviver, com
a escassez de dinheiro e a falta de comida. Entra em ação o poder
da soberania e da bondade. O caminho de Szpilman é cercado por amigos
(alguns da onça), que o ajudam, lhe arrumam abrigo; tentando escondê-lo
dos nazistas. Porém, quanto mais a Guerra esquenta, nem mesmo os poloneses
da alta sociedade vão conseguindo sobreviver ao massacre, tendo que abandonar
seus territórios para não serem mortos ou presos em campos de
concentração. Nisso, Szpilman fica sozinho, vivendo sob-escombros
e ruínas. Sua sanidade cada vez mais prejudicada pela dor e pela fome
vai se desfazendo e seu desejo de tocar piano fica concentrado em sua mente.
Polanski sem ter como modelar uma poesia visual por causa da feiúra do
que acontece, utiliza as notas do piano para realizar os mais belos e comoventes
momentos de sua fascinante obra. Seria muito difícil “O Pianista”
ser um filme chocante. Depois do que se viu na série de filmes sobre
o holocausto seria difícil ficar trêmulo com a frieza dos nazistas
em matar, ou então perplexo com atos e fatores. Mas, Polanski consegue
colocar medo, terror. Acredito que por ter vivido nos guetos, Polanski tinha
uma arma a mais que aqueles cineastas que viveram essa época, mas só
que em seus confortáveis cômodos. Na seqüência em que
uma mulher persistentemente repete um arrependimento e revelasse esse arrependimento,
Polanski tem a boa conduta, fazendo daquilo algo para quebrar qualquer frieza
humana – dando para “O pianista”, uma emoção
calorosa. Nas toneladas de filmes sobre o holocausto, judeus mortos com tiros
a queima roupa na cabeça não foi novidade alguma. E Polanski não
foge disso, mas aproveita o detalhe – como uma cena, onde um nazista seleciona
alguns judeus para deitarem no chão para morrer; no último, falta
bala – o mo mento é prorrogado até a reposição
e fuzilamento. Definitivamente, os detalhes fazem a diferença para que
“O pianista” se destaque e ainda consiga ser um filme chocante.
O pouco conhecido Adrien Brody tem uma atuação plausível.
Seu personagem sofre transformações das mais diversas, seja fisicamente
ou psicologicamente. Você, através de Brody, parece conseguir ver
quem foi Szpilman. A separação de sua família tem um efeito
dúbio nele: a felicidade de viver, e a infelicidade de perder seus familiares.
E Brody consegue em 5 minutos transmitir com brilhantismo esses dois sentimentos,
fugindo para “o outro lado do muro” e caindo aos prantos por causa
da solidão. Os ápices de sua atuação, porém,
acontecem conforme seu personagem vai ficando esquecido no mundo, vai ficando
cada vez mais sozinho e trancafiado em um cômodo. Doença, fome
e solidão fazem esses difíceis momentos (talvez os mais difíceis
para sua sobrevivência durante o holocausto) passados por Szpilman; além
do fator principal, de estar podendo a qualquer momento ser descoberto pelas
forças nazistas, que vão destruindo tudo. Às vezes vemos
no olhar de Brody um misto de espera nça, com o desejo de por um fim
em todo esse sofrimento que vem passando. Sua indicação ao Oscar
é merecida e esse novato em Oscar e experiente no cinema deve traçar
um caminho promissor no mundo cinematográfico. Além da indicação
de Brody, “O Pianista” conseguiu outras seis. Melhor Edição
(um trabalho convencional, mas que é mais rico e detalhista que as estripulias
de “Chicago”, por exemplo); Melhor Figurino (excelente trabalho
de Anna B. Sheppard, vestindo os personagens a caráter, com luxo e pobreza);
Melhor Fotografia (um espetáculo do desconhecido Pawel Edelman, um show
de iluminação e arte); Melhor Roteiro Adaptado (trabalho excelente,
pois consegue ser bonito por fora e recheado por dentro, numa trajetória
de vida inteira dentro de um período conturbado); Melhor Filme (ao lado
de “As Duas Torres” e “Gangues de Nova York” –
formando o trio que mereceria ganhar) e por fim Melhor Diretor (Roman Polanski
e Martin Scorsese, a briga é boa e ambos realizaram filmes que contem
as melhores qualidades respectivas, é ótimo ver grandes cineastas
sabendo lidar com o luxo e a grandiosidade orçamental da atual realidade
-; uma disputa de lendas vivas). Infelizmente, “O Pianista” não
deve levar muitas dessas estatuetas que devem ser disputadas e divididas entre
“As horas” e “Chicago”, os dois filmes mais fracos entre
os cinco indicadas – espero estar errado.."