Ronaldo Barreto Leite Filho (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:
"Em "Os Pássaros" (The
Birds), de 1963, Alfred Hitchcock demonstra, como em vários outros momentos
de diversas obras suas, o raro domínio sobre a linguagem cinematográfica
que lhe é bem próprio. Certamente o trecho mais contundente de
"Os Pássaros", para ilustrar a singular habilidade do cineasta
inglês, é a sequência em que a protagonista Melanie se dirige
até a casa de Mitch: primeiro o percurso feito de automóvel e,
principalmente, a travessia da Bodega Bay de barco são um excelente exemplar
do produto cinematográfico em seu estado mais puro e essencial; toda
a sequência é contada através, e tão somente, de
imagens, sem trilha ou diálogos. Não fosse pela sonorização,
seria um completo retorno ao cinema mudo. O aspecto interessante e a beleza
dessa sequência, claro, não advém de um mera saudade dos
tempos iniciais do cinema; Hitch, como grande manipulador, mantém o espectador
em um estado de tensão crescente, à medida que Melanie se aproxima
da casa de Mitch. A partir do motor do barco ligado, a câmera mostra,
alternadamente, a visão de Melanie da casa de Mitch do outro lado da
baía e um plano objetivo em que se vê o barco vindo de frente e
a vastidão do mar e do céu ao fundo. Essa alternância de
planos e a longa duração da sequência, que mostra todo o
percurso de Melanie, sugere ao espectador que algo de extraordinário
está na iminência de acontecer. E reafirmando, tudo se desenrola
sem qualquer locução, diálogo e, principalmente, sem música,
que costuma ser ponto forte e essencial em outros filme de Hitchcock, como "Frenesi"
e, talvez maior exemplo disso, "Psicose". O suspense é mantido
até o final da sequência, sem que nada de inesperado ocorra; apenas
quando Melanie faz o caminho de volta ocorre o primeiro ataque dos pássaros:
uma gaivota investe inexplicavelmente contra a cabeça de Melanie.
Um dos elementos fundamentais geradores da atmosfera de
tensão que recobre quase todo o desenrolar do filme é a falta
de explicação do súbito comportamento agressivo dos pássaros
de Bodega Bay. O que dá margem, inclusive, à uma sequência
deliciosamente cômica, quando vários do habitantes da região
discutem sobre o problema dos pássaros em um bar, com destaque para o
contraste entre a ornitóloga cética e o bêbado apocalíptico.
O absurdo do comportamento dos pássaros que, inexplicável e violentamente,
agridem as pessoas às enxurradas e de modo intermitente, acaba por aumentar
a angústia do espectador, que não sabe o que esperar para a cena
seguinte. Aí é que Hitchcock brinca com nossas expectativas, nos
surpreendendo com um violento ataque ou com uma, não menos estranha,
quietação momentânea dos pássaros.
Outro grande ponto a favor de Hitch é o resultado
obtido pelo filme sem a disponibilidade das atuais técnicas de computação
gráfica, de criação de efeitos visuais. Isso só
prova a tese de que não se faz uma boa obra cinematográfica apenas
com muito dinheiro e alta tecnologia; é fundamental ao menos um domínio
razoável das técnicas da linguagem fílmica. Apesar de várias
montagens fotográficas utilizadas por Hitch para algumas das cenas de
ataque dos pássaros, ele teve de usar também pássaros reais
e treinados, inúmeros deles. Os ataques eram simulados, sendo os pássaros
muitas vezes atraídos com comida, além dos pássaros empalhados
para completar a multidão que se põe atrás de Melanie,
enquanto ela fuma num banco da escola de Bodega Bay. Mas provavelmente "Os
Pássaros", se realizado pelo mesmo Hithcock nos dias de hoje, teria
um impacto ainda maior em suas cenas mais violentas. Mas enfim, infeliz do cineasta
que faz uso gratuito dos efeitos especiais hoje disponibilizados por Hollywood
e mais infeliz o espectador que se dispõe a ver um filme atraído
apenas por tais efeitos: mútua mediocridade que fere o status artístico
do cinema.
Neste filme é demonstrada a preferência de
Hitch por estúdios, em detrimento das locações. Na seqüência
inicial, quando Tippi Hedren, vista de longe, atravessa a rua em São
Francisco, o cenário é São Francisco mesmo. Mas quando
ela chega à calçada e passa por trás de um poste, sem que
se perceba o corte, a cena já é de estúdio: ela leva o
assobio de um garoto e, ao se aproximar da loja de pássaros, Hitchcock
sai pela porta com os dois cachorros - tudo isso era o estúdio da Universal...,
segundo as palavras de Ruy Castro.
O final é mais uma genial "brincadeira"
de Hitch que, contrariando o roteiro original, deixou o filme sem desfecho,
o que, sem dúvida incomoda grande parte, talvez a maioria do público.
Após a terrivelmente angustiante fuga dos protagonistas da casa de Mitch,
em meio a um sem número de pássaros, o carro que os leva segue
em direção à ponte de São Francisco e o filme é
interrompido num plano geral, sem ao menos o famigerado "The End",
tradicional e corriqueiro à época de "Os Pássaros".
Originalmente eles chegariam à ponte, então tomada por pássaros.
Tal alternativa também não daria cabo do enredo, mas seria um
pouco menos angustiante e enigmático. Hitchcock, contudo, optou por "deixar
no ar", em lugar de criar uma idéia de inexorabilidade do apocalipse
causado pelos pássaros."