Henrique Miura (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 8:
"Tudo
o que eu não esperava que fosse, "A Partilha" acabou sendo.
Achava que o filme iria seguir os padrões de uma novelinha global, mas
que nada, segue com um estilo politicamente incorreto, solta palavrões
(alguns sem necessidade, mas tudo bem) e consegue transportar algumas gírias
para a tela sem parecer artificial. Por exemplo, conseguem mandar um palavrão
de vai toma no @?!@#, sem parecer vulgar fora da tela, mesmo com 2 mulheres
do filme sendo um pouco vulgares. Tirado da peça teatral de Miguel Falabella,
esse "A Partilha" é um filme que relembra aqueles momentos
da vida que nunca mais retornarão ou, melhor dizendo, "aquele tempo
bom que não volta nunca mais". Após a morte da mãe,
4 irmães se vêem novamente frente a frente, elas não mantem
uma ligação e a única coisa que as ligava ainda era a mãe.
A principal delas é Selma
(Glória Pires, bem em cena), mulher de um milita que vive uma verdadeira
ditadura em casa. Suas roupas, seu jeito, sua rotina é tudo controlada
pelo marido repressivo que todas suas irmães não vão com
a cara. Luiz Fernando (Herson Capri, muito bem) é o vilão da história,
no ponto de vista das protagonistas. Regina (Andréa Beltrão, excelente,
excelente e excelente!) é exotérica, a mais descontraida entre
elas, tem uma vida aparentemente normal, se separou do marido e vive por aí
perdida na vida sem nada e ninguém. Laura (Paloma Duarte, irregular mas
no geral consegue um saldo positivo), a caçula da familia, ela surpreendentemente
assume gostar de mulheres e ter até uma namorada. Ela é lésbica,
ela é jornalista e pretende ir para a Europa, virou uma verdadeira intelectual
e é a mais consciente dentro da família. E, finalizando o quarteto,
Lúcia (Lílian Cabral), que vive na França mas, devido a
morte da mãe, acabou retornando ao país por tempo indeterminado,
onde acaba reecontrando o filho.
O roteiro limitado garante boas dosagens
de humor e drama, as 4 irmãs se veêm uma presa a outra. Começam
a relembrar da infância e muita choradeira irá rolar. O filme abre
discussões familiares, uma encontra um defeito na outra para se defender,
várias crises se encontram dentro da história, até seu
finalizamento bem feito e tocante. O que faltou mesmo foi um espaço maior
para a personagem da Andréa Beltrão, ela está tão
bem em cena que merecia mais espaço, que no geral ficou mal dividido.
Talvez se não colocasse a desnecessária atração
de Selma com o pintor Bruno (Marcello Antony, fraco), poderia abrir um espaço
maior para as outras personagens.
Existem cenas maravilhosas no filme,
onde quem não dá valor à vida aprenderá a recompensar
melhor o que tem. A cena da praia é muito boa, os enquadramentos são
fantásticos, seja quando forma um quadro de frente com as 4 ou quando
a câmera vai pegando uma por uma por um ângulo de cima. A fotografia
foi beneficiada com tanta beleza. Mas no inicio há uma falha, não
sei se é bem uma falha mas atrapalhou. No momento do enterro da mãe
delas a câmera se posiciona de baixo para cima no rosto de uma delas (infelizmente
no momento me esqueci de qual), o sol toma conta da imagem e acaba não
dando para ver coisa alguma.
"A Partilha" é um
filme super divertido. No começo as risadas rolam com frequência,
já mais para o meio e o final as coisas ficam mais sérias, afinal
é onde a história toma uma complexidade maior. Mas é uma
bonita história de união familiar, reconciliação
e brigas, uma história de pessoas normais, tendo os problemas que certamente
as pessoas sofrem ou sofrerão. São os problemas da vida, que podem
ser superados.
Um momento que ficou marcado também
foi quando Selma se nega a assinar a venda do apê. Na verdade ela achava
que aquilo era que mantia a família ainda ligada. E como ela não
queria ver todas para um canto vivendo como desconhecidas, ela queria manter
o apê vivo para manter a união entre elas, e ela ainda quer também
manter tudo vivo para não apagar aquilo de sua infância, ela é
muito ligada ao prédio e a mais ligada a mãe, já as outras
passavam mais rápidamente a bola pra frente e iam direto para a parte
da herança.
Um filme que mostra que a união
da familia é mais feliz do que qualquer quantia de dinheiro e que aquele
bom tempo não volta mais, mas ele fica sempre guardado em nossas memórias.
Esse filme é bem legal, mas sei que brevemente será esquecido.
Para quem gosta de nacionais uma boa pedida para esse final de ano, onde as
familias começam a se reencontrar. VEJA!"