Carlos Massari (e-mail), Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:

"Basicamente os filmes sobre fantasmas são shows de efeitos acéfalos e sem um pingo de roteiro... Mais uma teoria cinematográfia é quebrada. "Os Outros" vem para provar que até em filmes de terror o que faz a diferença é o roteiro. Quase não usa efeitos, apenas jogadas de câmera que garantem sustos inesquecíveis no espectador. Sem contar que tudo se desenvolve muito bem. É sutil, elegante, forte, aterrorizante... tudo isso sem apelar. Resumindo, é uma obra-prima.

A história nos mostra Grace, uma mulher severa e rígida, porém muito sozinha. Isso ocorre pelo fato de seu marido ter ido a guerra, e mesmo com o término desta não ter retornado. Grace mora em uma mansão sombria isolada de tudo e de todos, com seus dois filhos. Eles sofrem de uma rara doença, uma espécie de alergia a luz, que causa bolhas, chagas, levando rapidamente à morte. Grace passa seus dias dando lições de religião para seus filhos, já que estes não podem ir à escola. Um dia chegam três novos empregados, que são imediatamente aceitos, já que os anteriores haviam desaparecido subitamente... Grace explica que todas as cortinas devem permanecer fechadas, e sempre a porta do cômodo anterior deve ser trancada antes da seguinte ser aberta, isso devido à doença de seus filhos.

O problema é que a menina está enxergando os mortos. Conversa com um menino fantasma e fala isso para a mãe, que sempre a deixa de castigo. Logo Grace também começa a escutar barulhos, vozes e a ficar apavorada...

Com toda a certeza o maior mérito de "Os Outros" é seu roteiro, que dosa o medo com cautela e segurança, para não exagerar. Subitamente a trama se desenvolve e logo estamos no melhor final dos últimos tempos. Revelá-lo é um crime. É aí que entra uma parte que já foi dita: várias críticas estão dando uma grande pista do final, mesmo sem ter a pretensão de fazer isso. É lamentável, já que o final deixa qualquer pessoa normal dizendo "Nossa, como isso!?!". Pode parecer que o roteiro usaria de reviravoltas absurdas para tal desfecho. Há reviravoltas sim, mas nenhuma absurda. Todas, como já dito, possuem uma sutileza que só aumentam o medo e a tensão.

O chileno Alejandro Amenábar fez um trabalho de primeiríssima classe. Dirigiu e escreveu essa pérola. Cada um de seus movimentos de câmera deixa o espectador pensando e estudando a trama, o próximo susto, o máximo possível! A parte com as crianças no armário nos prega um dos maiores sustos da história, que deixa qualquer um tremendo por uns dez minutos. O mais importante: O filme usa clichês, mas é muito oriiginal. Como? Simplesmente mudando o estilo de direção e cortando os efeitos bestas. A montagem também é primorosa.

O que se dizer de Nicole Kidman? Ela dá um show, explorando sua personagem ao máximo. Cada característica é mostrada: A frieza que, aos poucos, dá lugar ao medo, e, na revelação fina, à melancolia. Fionnula Flanagam é outra queexplora sua personagem até o fundo. A passagem da babá amigavel para uma coisa mais profunda até a transformação final que abre o espaço para o final do filme. A dupla de crianças também é perfeita. Haley Joel Osment que se cuide!

"Os Outros" é o melhor filme sobre fantasmas já feito, derrubando a teoria besta de que o bom filme do gênero é lotado de efeitos especiais. Levei muito mais sustos aqui do que com "A Casa Amaldiçoada", que abusava de efeitos. Aliás, esse filme deveria ter uma nova censura: "Não recomendao para cardíacos". Méritos de Amenábar, que criou um universo sombrio e surpeendente.

E, também, mérito de Nicole, que protagonizou as duas obras-primas do ano, até o atual momento. Se a estatueta de melhor atriz não estiver com ela no próximo 22 de março, será muita marmelada."