Kiko César, Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:

""Mulholland Drive" é um daqueles raros exercícios de pura criatividade, que David Lynch, seu roteirista e diretor, ousa compartilhar com seu público, não somente um voyeur diante da tela grande, mas também se conquistado cúmplice, fugindo numa fascinante viagem que começa certa noite pela legendária Mulholland Drive e que se embrenha por inusitados cantos de Los Angeles, cidade dos anjos. E dos sonhos.

O saudável esforço de Lynch em não querer amarrar os personagens da trama, desde seu início até a brutal guinada no desenvolver da história (terceira parte do filme) não só rompe com uma tradicional linearidade narrativa, mas também a redescobre. Diante da mente do espectador uma obra orgânica, aberta, irreverente, em que cada cena tem sua beleza e vida própria.

Dica: assista a esse filme totalmente relaxado e descompromissado, não aperte os olhos, não queira se apegar aos mínimos detalhes, aos "porquês" disso ou daquilo. "Mulholland Drive" tem como maior mérito a sua generosa multiplicidade de ângulos. É como se David Lynch, em determinada altura desse seu projeto, desistisse de querer desenvolver a trama em sintonia com o já estabelecido para simplesmente experimentar narrá-la em diferentes tempos narrativos. Assim, ele vai e volta entre o presente, o passado e o futuro; substitui seus personagens, trocando os seus papéis e, como genial consequência, reinventa o próprio roteiro, dentro do próprio roteiro. É como se nem Lynch soubesse para onde sua história está caminhando...

Não é todo dia que o espectador pode ter acesso de forma tão explícita, mas nem por isso óbvia, à tempestade intuitiva de um diretor em pleno processo de criação. Caro David Lynch, o público te agradece."