Henrique Miura, Leitor do Adoro Cinema - Nota 8:
"Depois de entrar no consumo e na venda
de drogas, é difícil sair. Dentre os incontáveis contras
essas práticas, existe o mais grave - que é o desligamento, ou
seja, o depois dos erros e da desgraça. O arrependimento, neste caso,
vale tanto quanto uma moeda de cruzeiro. Existem, portanto, três períodos.
A venda, o consumo e a tentativa do desligamento; que é impossibilitado
por causa dos dividendos causados pelo ramo, em que a maioria do lucro vai para
os chefões das ruas. Em "Meu Nome é Joe", temos Liam
(David McKay), um jovem desempregado recém saído da prisão,
que se encontra em uma situação dificílima ao lado da esposa
(Anne-Marie Kennedy) e do filho de 4 anos de idade. Quando foi preso, Liam estava
devendo muito dinheiro para os chefões do pobre bairro em que vivia -
para tentar se sustentar, sua mulher acabou penetrando no ramo e virou uma viciada
traficante. Agora que é um homem livre, Liam precisa urgentemente encontrar
um meio de pagar essa divida e se livrar das pressões e ameaças
da máfia. Contudo, a história de "Meu Nome é Joe",
não é sobre Liam. É sobre Joe, como o próprio título
sugere. Joe (Peter Mullan) é um homem solitário, mas correto em
sua postura, desde quando freqüentou por duas vezes o AA (Alcoólatras
Anônimos), e no momento, é treinador de um time de futebol de várzea.
Liam, é um dos componentes deste time, e Joe tem muita empatia pelo rapaz
- e foi quem o incentivou a largar o mundo sujo que vivia. A única família
de Joe é seu time de futebol. Entretanto, quando surge em sua vida uma
enfermeira pelo qual ele se apaixona, diversas situações começam
a se complicar. Ken Loach realiza um filme que traz lições de
vida, superação e amor. Diversas atitudes tomadas por alguns personagens,
são fundamentais para conclusões importantíssimas para
a trama. Joe vive um dilema de amor e amizade: agradar e manter sua relação
com a enfermeira pela qual está perdidamente apaixonado, ou então
abrir mão de seus ideais corretos e tentar salvar a vida do parceiro
de modo sujo e desonesto. Nós que acompanhamos ficamos a par de todo
o que aconteceu na vida de Joe, torcemos para que tudo o que ele faça
dê certo, principalmente por ter em si muita generosidade e companheirismo.
O roteiro de Paul Laverty é dramático. As situações
com o decorrer da trama vão ficando cada vez mais difíceis e temíveis,
e os indícios são dos piores para os personagens. O roteiro tem
uma capacidade notável em finalizar com precisão e força
tudo aquilo que criou, abusando espertamente do arrependimento que consome os
personagens por algumas atitudes tomadas. Com a cena e principalmente os diálogos
(maravilhosos) que compõe o clímax da trama, o roteiro abre um
portal para se refletir sobre tudo aquilo que passou na tela; sem cair em qualquer
apelação para o choro fácil, existe uma forte carga dramática
e por ficarmos tão próximos aos personagens, sentimos pena, ódio
e tristeza com os rumos de suas vidas. Mas, Ken Loach não quer um filme
pesadão. Seu filme consegue até mesmo, momentos de humor e referências,
como quando os jogadores entram em campo com o mesmo uniforme alemão,
e uma das equipes tem de jogar sem camisa em um frio de congelar. O melhor acontece
depois, quando os jogadores roubam uma carga de uniformes... da seleção
brasileira de futebol (são todos desempregados e sem a mínima
condição de comprar uma roupa para disputar o campeonato), e fazem
referências à Pelé e Rivellino. Porém, o esporte
só fica como pano de fundo bem secundário e não temos nenhum
jogo mostrado. "Meu Nome é Joe" conta com ótimas atuações;
Peter Mullan, inclusive saiu vencedor no Festival de Cannes, como Melhor Ator.
Contamos ainda com uma ótima trilha sonora de George Fenton, que mistura
som moderno com toques clássicos, e uma fotografia (cortesia de Barry
Ackroyd) típica de filme europeu independente (apesar de não ser
europeu), com alguns granulados. Infelizmente, o filme passou em branco pelo
Brasil e merece ser descoberto - com Ken Loach tornando-se cada vez mais conhecido
pelos cinéfilos, é possível que o reconhecimento desse
filme venha acontecer com tempo, e torna-se um cult marcante."