Diego Sapia Maia, Leitor do Adoro Cinema - Nota
9:
"Os
dramas de guerra, em sua maioria, seguem sempre os mesmos moldes: cenas de batalha,
salvamentos, e redenção no final. Poucos ousaram sair deste esquema.
Apocalypse Now, um dos filmes de guerra mais complexos já feitos, é
um deles. E MASH, sem dúvida, é outro. Para começar, é
um filme de guerra, mas não é um drama. É uma comédia.
A ousadia de MASH em fazer rir com
a guerra ao fundo é tão grande que este ficou marcado como um
dos únicos filmes que já tiveram coragem parecida. No momento,
também lembro-me de O Grande Ditador, de Charles Chaplin, que fazia piadas
com o Nazismo. MASH, por outro lado, utiliza a Guerra da Coréia como
pretexto para desfilar um humor ácido, negro, hilariante e que, no final,
acaba fazendo mais do que simplesmente estampar um sorriso no rosto do público.
O humor de MASH, além de divertir, também leva à reflexão.
Para se ter uma noção
de quão subversivo este projeto é, o diretor Robert Altman teve
vários atritos com o elenco principal, que dizia que o diretor seria
o responsável pela destruição da carreira de cada um naquele
set. Altman ainda teve que lidar com a ira do roteirista Ring Lardner Jr., que
ficou furioso ao perceber que a maior parte dos diálogos fora tirada
do filme. Os atores improvisaram a maior parte do tempo, e o roteiro de Lardner
acabou servindo apenas como delineador da história. Ironicamente, o roteirista
acabou levando o Oscar por este trabalho. Como se não bastasse, Altman
também teve que se entender com os produtores da FOX, que chegaram a
afirmar que este era o pior filme que eles já tinham feito em toda a
história do estúdio.
O resultado de tudo isso ? Um estrondoso
sucesso de bilheteria, 5 indicações ao Oscar, e a Palma de Ouro
em Cannes.
MASH não tem uma trama definida.
O filme apenas narra o cotidiano de cirurgiões militares na Guerra da
Coréia. Capitão Hawkeye (Donald Sutherland) , Trapper John (Elliot
Gould, mais conhecido como o pai de Monica e Chandler em Friends), Capitão
Duke (Tom Skerritt) e a enfermeira-chefe Margaret "Hot Lips" (Sally
Kellerman) transformam o acampamento num lugar irreverente e cômico. O
riso acaba por aliviar a dor destes cirurgiões, que precisam enfrentar
os horrores da guerra (pacientes mutilados, feridos à bala, em explosões...)
todos os dias.
Curiosamente, MASH é um filme
de guerra que não apresenta um único tiro ou explosão.
Um único projétil é disparado num jogo de futebol americano,
para marcar o final de um tempo. Este jogo, que fecha o filme, traz, aliás,
as cenas mais engraçadas de toda a fita. Fica impossível segurar
as gargalhadas quando a enfermeira "Hot Lips" (apelido dado numa outra
cena hilariante) dá uma de cheerleadear saltitante.
Engraçadíssimas também
as cenas onde Hawkeye e Trapper John vão ao Japão cuidar do filho
de um militar. Outra cena impagável, e uma das mais ousadas inclusive,
é o falso-suicídio do dentista, desesperado depois de ter falhado
na cama. São memoráveis ainda as constantes intervenções
do alto-falante, cenas que só foram adicionadas ao filme na sala de edição.
Apesar de ser uma obra norte-americana, MASH traz muito do sarcástico
humor inglês.
O filme também tem interpretações
excelentes de todo o elenco. Donald Sutherland e Elliot Gould fazem um trabalho
absolutamente genial como os líderes da "bagunça" instalada
no acampamento. E Robert Duvall, apesar de aparecer pouco, tem uma participação
excepcional.
O único defeito de MASH é
se prolongar por uns 10 minutos além do que deveria. Algumas cenas poderiam
ser perfeitamente cortadas sem atrapalhar ou prejudicar o filme. Mas isso não
deixa de ser um fato extremamente irrelevante, já que o brilhantismo
desta subversiva obra de Robert Altman supera e ofusca quaiquer defeitos."