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Nano Souza (e-mail), BORDER="0" SCROLLING="no" FRAMEBORDER="0"> Leitor do Adoro Cinema - Nota 9:

"É fácil criticar "Marte Ataca". Difícil é sair da mentalidade rasteira e viciada que muitos "especialistas" em cinema (críticos ou fãs de filmes populares) ostentam após milênios acostumados ao mesmo lixo óbvio e estéril de Hollywood. Digam o que disserem, Tim Burton é tudo, menos covarde. Um diretor corajoso que investe em bizarrices sim. Essa é sua marca, o que torna seus filmes diferentes. Basta bater o olho em uma das suas películas que voce já o reconhece. "Ed Wood" não foi diferente e "Marte Ataca" é claramente uma continuação deste primeiro, agora com o próprio Burton explorando o terreno preferido do pior diretor de cinema de todos os tempos: os filmes B de ficção científica.

Baseado em uma HQ publicada nos EUA pela Top Comics (infelizmente inédita por aqui), "Marte Ataca" saiu mais ou menos um ano após "Independence Day" e acabou também por se tornar uma deliciosa paródia ao filme de Roland Emerich. Talvez isso explique a legião de detratores do filme por parte do público do cinema popular norte americano, digo, aqueles que assistiram Indendence Day mais de uma vez, compraram o DVD e até as miniaturas! Todos os valores exposto em ID4 são subvertidos em "Marte Ataca": o presidente norte-americano é um político oportunista e covarde; a primeira dama é superficial e medíocre; os militares apresentados, ao contrário de Will Smith, são ou vacilões interessados apenas em promoções ou facistas relacionadas a industria armamentista; e os cientistas não são genias (o que era aquele tradutor, meu Deus), mas parecem crianças que descobrem um brinquedo novo e mal podem esperar a hora de aparecer na TV. Fiz uma pesquisa com meus amigos e todos aqueles que adoraram "Independence Day" odiaram "Marte Ataca" e vice-versa.

Na minha opinião "Independence Day" era um filme de terceira travestido de grande produção, enquanto "Marte Ataca" se esforça no sentido contrário, ou seja, é um grande filme travestido em filme B. Os efeitos visuais são propositadamente caducos, ao contrário do elenco: o filme não tem estrelas, tem uma constelação. Mas pasmen, nenhum deles é o verdadeiro mocinho da fita. Michael J. Fox morre logo no começo. O presidente Nicholson não reage. Quem salvará o mundo? O desconhecido ator que faz o também desconhecido vendedor de rosquinhas?

O filme ataca valores caros aos americanos, o que talvez tenha valido a reação negativa de outro público: o dos chamados "críticos sérios" de cinema. Burton começa já no início, parodiando a família presidencial (afinal são ou não são os Clinton, têm até uma filha adolescente!); Há ainda a família americana vítima da recessão, que mora num trailler, mas tem orgulho da América, são americanos até a raiz do cabelo, armados até os dentes e com orgulho do filho brucutu que serve no exército e morre de forma babaca segurando a bandeira americana (a primeira imagem simbólica do filme); mas o melhor de tudo é o militar careca e facista que quase no final do filme faz um discurso inflamado contra os ETezinhos enquanto eles o diminuem de tamanho com uma arma especial: "voces pensam que podem vir aqui e destruir tudo não é? Mas estão enganados! Nós somos americanos, temos o maior exército do mundo! Iremos combater nas ruas, nas trincheiras, nas praias, nos campos, até o último homem! No final a democracia vai vencer...!" E o líder marciano pisa e o esmaga. Eu aplaudi sem pudor nenhum dentro do próprio cinema.

Muita gente pode dizer: Mas se é uma comédia, já vi mais engraçadas. Aí é que está: É preciso entender a piada. E acima eu enumerei várias pistas. "Marte Ataca" é uma crítica velada ao militarismo norte americano, uma satira aos filmes ultra-patrióticos como independence day, e também uma homenagem aos filmes B e porque não ao próprio "Ed Wood". Uma pena que não teve o reconhecimento devido no seu tempo. Mas o cinema, como qualquer outra arte, trascende sua época, e com certeza, outras gerações, menos bitoladas e com uma clareza maior de visão do que foi a nossa época, possa apreciar e aplaudir não só um bom retratado do cinema e da sociedade americana, mas também um diretor criativo e corajoso como Tim Burton."