Pedro Ferreira de Freitas (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:
"Evidentemente, o leitor
já ouviu em algum lugar que Orson Welles foi um gênio do cinema.
Também é certo que pelo menos os mais atentos já sabem
que seu filme mais famoso, "Cidadão Kane", figura no topo da
lista de melhor filme em todos os tempos. Digamos agora que esse leitor e curioso
sobre cinema resolva conhecer esse tal gênio da sétima arte. Esse
comentarista recomenda que, pelo menos inicialmente, o leitor deve deixar "Cidadão
Kane" para um segundo tempo e partir para a apreciação de
"A Marca da Maldade", de 1953 e disponível agora em VHS, inclusive
para venda direta, a partir de copia restaurada e com uma edição
mais próxima da idealizada por seu criador.
Neste filme está contida toda a genialidade
de Orson Welles, sua maneira peculiar de filmar, a maneira meticulosa como constrói
as cenas, a grande quantidade de informações contidas em um enquadramento,
tramas paralelas, profundidade de campo etc... As cenas iniciais de "A
Marca da Maldade" são espetaculares e talvez seja o melhor plano
seqüência da historia do cinema. São vários minutos
de filme sem cortes, com dezenas de personagens e várias historias acontecendo
tudo simultaneamente e que se encerra com uma cena de grande violência.
Charlton Heston é Vargas, um policial mexicano envolvido no combate ao
narcotráfico e que encontra-se em lua-de-mel numa pequena cidade na fronteira
com o México. Ao presenciar um atentado a um cidadão americano,
vê-se envolvido numa teia de corrupção e decadência
comandadas pelo inspetor Quinlan, o personagem de Orson Welles. A historia é
banal, no entanto Welles foge do convencional, do maniqueísmo de opor
mocinhos e bandidos e construiu um filme de investigação psicológica.
Welles filmou o caráter dos personagens, se isso for possível,
penetrou nas profundezas de suas motivações, obtendo um resultado
espetacular. Quinlan é um policial chafurdado na lama da corrupção,
mas acredita na justiça segundo a sua intuição. Ele fora
vitima de chicanas judiciais no passado e sente-se um injustiçado. Ele
pinta e borda na pequena cidade onde é respeitado e temido. Ao bater
de frente com Vargas, que acredita ser um idealista em busca da justiça,
presenciaremos um verdadeiro duelo de titãs e dessa oposição
se valerá o filme, que a certa altura deixará o espectador em
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duvida sobre o real caráter desses personagens. Welles mais uma vez jogará
com a ambigüidade dos personagens, aliás, um dos temas mais recorrentes
na sua filmografia. Num momento inicial, Welles nos seduz com imagens belíssimas
e de grande força descritiva para num momento posterior nos fazer compreender
o quanto somos pequenos e impotentes diante de uma estrutura social marcada
pela maldade e a corrupção. Um Grande Filme! Uma obra-prima definitiva!."