Gláucio Santos dos Reis (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 7:
"Esta
segunda adaptação do clássico homônimo de H. G. Wells
é ainda menos fiel ao livro que a primeira, dirigida por George Pal em
1960. O diretor Simon Wells mostra pouco respeito pela obra do bisavô
e conta uma história totalmente diferente. Algumas modificações
até são bem-vindas, pois o livro, se lido apenas como aventura,
é fraco. Por exemplo, o herói, que no livro enfrenta os nem tão
temíveis morlocks para recuperar a máquina do tempo e voltar para
casa, agora encara morlocks marombados para salvar a "donzela em perigo"
e tentar consertar o mundo. Por outro lado, o espírito da obra, de crítica
social, perdeu-se.
O filme começa bem, com boa
reconstrução do século XIX. Há até tiradas
espertas, como a referência a um certo jovem chamado Einstein. O cientista
Alexander Hartdegen (Guy Pierce), que no livro é referido apenas como
o "Viajante do Tempo", ganha no filme uma motivação
romântica para inventar a máquina: ele deseja voltar ao passado
e impedir a morte da noiva. Não conseguindo mudar o destino dela, viaja
ao futuro, em busca de uma resposta, mas se decepciona ao descobrir que em 2030
as viagens no tempo ainda são ficção científica
- com direito a menção ao próprio livro em que o filme
é baseado. Um acidente faz a máquina avançar mais 800 mil
anos e Alexander se depara com um mundo tecnologicamente atrasado, onde o pacífico
povo dos elois é caçado pelos morlocks, monstruosos habitantes
dos subterrâneos.
No livro, a divisão da humanidade
em morlocks e elois é uma extrapolação das relações
entre a burguesia e o proletariado. H. G. Wells previu um distanciamento crescente
entre as classes: os pobres, cada vez mais pobres, trabalhando para tornar os
ricos cada vez mais ricos. Sem lugar nas cidades superpovoadas, os trabalhadores
são obrigados a viver debaixo delas, sofrendo uma degeneração
progressiva que os transforma nos simiescos morlocks, enquanto a burguesia indolente
se transforma nos frágeis elois, que passam o tempo desfrutando dos prazeres
simples da vida. O interessante é que a relação entre as
classes continua: os morlocks trabalham para o conforto dos elois, provendo-lhes
roupas e comida, mas vêm à noite para cobrar um alto preço.
Todavia, nada disso, exceto o preço, está no filme. Os elois,
que no livro são louros e delicados, com um metro e vinte de altura,
no filme são humanos perfeitamente normais, e o principal deles é
a bela mulata Mara (a estreante Samantha Mumba).
O filme se assume de vez como aventura,
quando, de repente, o pacato cientista vira um intrépido herói
capaz das maiores façanhas atléticas. Mas não vou criticar
muito esse detalhe, pois eu mesmo já fiz algo parecido em meu livro "Viajantes
do Tempo" - que cito aqui apenas para pagar meu tributo a H. G. Wells,
o vedadeiro inventor da máquina do tempo na literatura.
Continuando... Depois de algumas
seqüências de ação, a resposta de Alexander vem na
forma de um paradoxo banal e é dada por um líder dos morlocks
(Jeremy Irons, que parece estar se especializando em vilões de filmes
que ficam abaixo do esperado, como "Dungeons & Dragons"). O filme
termina antes que possa empolgar. Ficam evidentes os problemas de produção
e a montagem feita às pressas. É tudo muito rápido, muito
fácil para o herói.
Há que se mencionar os efeitos
digitais, que criam belas cenas para mostrar a passagem acelerada do tempo,
embora nem sempre o resultado seja muito realista. E que também substituem
os atores em roupas de espuma de borracha, quando os morlocks precisam de mais
ação. Pena que, na preocupação excessiva de não
ferir sensibilidades e em nome do politicamente correto, ficou de fora a cena
que mostraria a destruição de Nova Iorque.
O elenco não é muito
exigido e não compremete. O diretor é apenas medíocre,
exceto na interessante fusão de passado e futuro na cena final. Parece
mesmo que deram a direção ao inexperiente Simon Wells numa jogada
de marketing.
No balanço final, "A
Máquina do Tempo" é até um bom filme, do qual é
fácil gostar, se não se for ao cinema com muitas expectativas.
Com uns quinze ou vinte minutos a mais, poderia ser ótimo. E o problema
é justamente esse, a sensação de que podia ter sido muito
melhor."