Renato Rosatti (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 7:
"Uma das características do cinema
fantástico atual é produzir várias refilmagens de antigos
clássicos do passado. Isso demonstra uma certa falta de originalidade
e criatividade dos roteiristas do momento, que preferem resgatar histórias
já contadas, apenas acrescentando algumas poucas idéias, do que
tentar criar algo realmente novo ou pelo menos com situações menos
previsíveis e não já largamente exploradas. Por um lado,
isso é até compreensível se considerarmos uma certa escassez
de idéias, pois em termos de horror e ficção científica
muita, mas muita coisa já foi filmada mesmo e comercialmente é
também mais garantido refilmar algo já conhecido. Por outro lado,
os fãs sempre estarão esperando por novidades nessas áreas,
por mais que estejam saturadas. Porém, não deixam de ser interessantes
e atrativas as novas versões para os clássicos, principalmente
pela oportunidade de inserir técnicas mais modernas de efeitos especiais,
criando novos visuais e proporcionando filmagens de cenas e situações
que dificilmente poderiam existir da mesma forma nas produções
de várias décadas atrás. Dentro desse contexto inclui-se
"A Máquina do Tempo" (The Time Machine), que entrou em cartaz
nos cinemas brasileiros em 19/04/02, sendo uma refilmagem do original de 1960,
dirigido por George Pal e estrelado por Rod Taylor e Yvette Mimieux. O filme
é baseado no livro homônimo do popular e cultuado autor Herbert
George Wells, escrito em 1894, e que teve inúmeras outras obras filmadas
como "A Guerra dos Mundos", "A Ilha do Dr. Moreau", "Os
Primeiros Homens na Lua" ou "O Homem Invisível", sendo
ele um dos precursores da literatura de ficção científica.
A nova versão é dirigida curiosamente por seu bisneto, Simon Wells,
e tem como protagonistas principais os conhecidos Guy Pearce ("Amnésia")
e Jeremy Irons (especializando-se em papéis de vilões, como em
"Dungeons & Dragons"), além da presença da novata
Samantha Mumba e de Orlando Jones (um dos cientistas atrapalhados em "Evolução").
Na história, Pearce interpreta o cientista Alexander Hartdegen que vive
na New York por volta de 1900, sendo um professor de ciências envolvido
no projeto de invenção de uma máquina capaz de viajar no
tempo. Após a morte inesperada de sua noiva Emma (Sienna Gillory) num
assalto, ele utiliza o incidente como uma motivação para a criação
de uma máquina que possa levá-lo de volta ao passado e tentar
evitar o crime que vitimou sua amada. Após quatro anos de trabalho a
máquina está pronta, porém o cientista depois de várias
tentativas se convence que não é possível alterar o passado
e decide então viajar para o futuro, testemunhando a vida no planeta
em 2030, um futuro onde entre outras coisas a Lua foi colonizada pela humanidade.
Porém, uma explosão no solo lunar alterou sua órbita e
grandes pedaços caíram na Terra, causando enormes devastações.
Continuando sua viagem ele acidentalmente acelera a máquina até
atingir o super distante ano de 802.701, passando por diversas e longas eras
de transformação do planeta alternando entre cenários desérticos
e congelados, num show de imagens. Lá chegando ele encontra um mundo
povoado basicamente por duas civilizações humanóides distintas
e inimigas, os "elói" e os "morlock". Os primeiros
são um povo pacato, que vive na superfície em habitações
penduradas em penhascos de forma similar aos índios que conhecemos. Já
os morlock são seres disformes, canibais e agressivos, que vivem no subsolo,
liderados por um tirano interpretado por Jeremy Irons, numa caracterização
que o torna parecido com uma criatura gótica. Nesse novo ambiente o cientista
Hartdegen enfrenta uma grande aventura, se situando a favor dos nativos enquanto
procura entender e conhecer o mundo do futuro. O novo "A Máquina
do Tempo" tem algumas diferenças em relação ao primeiro
filme de 1960 e ao livro de Wells, o que de certa forma já é esperado
pois as refilmagens sempre acrescentam novas idéias ou algumas mudanças
nos roteiros originais. Porém ainda assim está próximo
e não prejudica a obra de seu criador, nem o filme clássico de
George Pal. Alguns pontos de diferença notáveis são a ambientação
inicial alterada de Londres para New York, o inexistente drama familiar da morte
da noiva do cientista motivando a construção da máquina
do tempo, o surgimento do líder do povo subterrâneo futurista,
também inexistente, ou a caracterização dos novos morlocks,
muito mais ágeis e violentos, além de agirem também à
luz do dia. Como curiosidade vale citar a presença do ator Alan Young
do filme original, que agora faz uma pequena ponta como um dono de floricultura
que pronuncia uma única frase, deixando claro que sua participação
foi uma homenagem. Ou ainda a presença de Orlando Jones como Vox, um
computador que personifica um bibliotecário virtual que conseguiu sobreviver
ao longo dos infindáveis anos de evolução da Terra e que,
num momento de entretenimento, fez uma saudação "trekker"
para o cientista Alexander, reproduzindo a famosa frase do Dr. Spock de Star
Trek, "vida longa e próspera". Os atores mais conhecidos, Guy
Pearce e Jeremy Irons, fazem a sua parte com interpretações que
mantém o interesse pela história, apesar que em determinados momentos
o roteiro parece confuso e as situações acontecem muito rapidamente.
O filme tem apenas 92 minutos e um pouco mais de filmagem provavelmente ajudaria
num melhor entendimento. Mas os modernos efeitos especiais são a grande
atração, nos incitando a viajar pelo tempo junto com o cientista
e conhecer novas eras, acompanhando sua trajetória num mundo centenas
de milhares de anos no futuro. Pensando apenas na diversão, o que temos
a fazer então é relaxar e embarcar nessa viagem..."