Renato Rosatti, Leitor do Adoro Cinema - Nota 8:
"A década de 1940 foi marcada pela paranóia
nuclear motivada por objetivos bélicos na condução principalmente
da “Guerra Fria”, surgida após a Segunda Guerra Mundial entre
as potências Estados Unidos e União Soviética. Esse período
conturbado da humanidade inspirou significativamente o exercício da imaginação
dos roteiristas de cinema, que a partir dos anos 50 começaram a lançar
um sub-gênero do cinema de horror e ficção científica
denominado de “Big Bug”, ou “Inseto Gigante”. As histórias
basicamente envolviam contaminações de insetos por elementos tóxicos
transformando-os em monstros horrendos ou “cientistas loucos” em
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meio às suas criações bizarras ameaçando a humanidade.
E introduziam como principais protagonistas os mais diferentes insetos, entre
formigas, aranhas, gafanhotos, escorpiões e vespas, que de pequenos e
aparentemente inofensi vos, transformavam-se em criaturas macabras gigantescas,
alteradas pela exposição à elementos radiativos que atacavam
suas estruturas genéticas agindo diretamente no aumento desproporcional
de seus tamanhos. Os filmes mais representativos dessa fase incluem “O
Mundo em Perigo” (Them!, 1954), de Gordon Douglas, sobre formigas gigantes,
e “Tarantula” (1955), dirigido por Jack Arnold, sobre uma aranha
que acidentalmente cresce a uma altura de 30 metros devido ao contato com um
hormônio de crescimento de uma fórmula desenvolvida por um cientista
que também se transformou num mutante grotesco por causa da mesma solução
química. O enorme inseto passa então a aterrorizar a população
do Arizona até ser abatido pelas bombas dos caças da força
aérea americana. Os filmes de aranhas gigantes e mais especificamente
este último são a referência básica de inspiração
para a moderna produção “Malditas Aranhas!” (Eight
Legged Freaks), que entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 16/08/02. O
filme é produzido por Dean Devlin e Roland Emmerich com um orçamento
de US$ 30 milhões, que é pouco se comparado às suas outras
super produções como “O Patriota”, “Godzilla”
e “Independence Day”, mas o suficiente para uma demonstração
de magníficos efeitos especiais e muito dinheiro quando comparado aos
filmes “B” da década de 50. A direção é
do novato Ellory Elkayem que também assina o roteiro em parceria com
Jesse Alexander. E o elenco principal é igualmente desconhecido com exceção
de David Arquette (da série “Pânico”, de Wes Craven).
“Malditas Aranhas!” é uma paródia dos antigos filmes
fantásticos com insetos gigantes dos anos 50, nesse caso investindo na
atuação de gigantescas aranhas que aterrorizam uma pequena cidade
mineira do interior dos Estados Unidos chamada “Prosperity”, no
Arizona. Um caminhão causa um acidente ao se desviar do atropelamento
de um coelho na estrada e descarrega parte de sua carga tóxica que desliza
e atinge uma lagoa contaminando suas águas. Após uma semana começam
a surgir gafanhotos mutantes infectados no local, os quais são então
utilizados como alimento para uma criação de aranhas exóticas
mantidas por um velho fazendeiro esquisito e os aracnídeos aos poucos
vão tornando-se gigantes até que mais uma semana depois seus tamanhos
chegam a superar o de um homem para os casos dos machos, e quase se igualar
ao de um ônibus no caso da rainha fêmea (carinhosamente chamada
de “Consuela”, originária do Chile). Uma vez gigantes, cerca
de uma centena de aranhas se deslocam até a cidade invadindo e aterrorizando
a população, obrigando os sobreviventes a se encurralarem num
shopping center. Para combatê-las surgem o “herói”
Chris McCormack (Arquette), um ex-morador de Prosperity que retorna após
dez anos para se apossar de uma mina de ouro e gás metano pertencente
ao seu pai falecido, e a bela xerife Sam Parker (Kari Wuhrer), por quem Chris
é apaixonado. Outros personagens da trama incluem o prefeito corrupto
do local, Wa de (Leon Rippy), que tentava vender ilegalmente a mina, seu enteado
motoqueiro Bret (Matt Czuchry), a namorada dele e filha da xerife, Ashley Parker
(Scarlett Johansson), além do típico adolescente “nerd”
e estudioso de aranhas Mike Parker (Scott Terra), também filho da xerife,
do dono maluco de uma rádio pirata local, Harlan (Doug E. Doug), que
insiste em denunciar em seu microfone supostas conspirações governamentais
envolvendo extraterrestres, e finalmente do assistente atrapalhado da xerife,
Pete (Rick Overton). As curiosidades, referências, homenagens e destaques
são muitos e constituem um dos principais atrativos do filme. “Malditas
Aranhas” iria se chamar originalmente “Arac Attack”, porém
como a pronúncia em inglês se confundia com algo como “Ataque
do Iraque”, o título foi substituído, pois principalmente
após os atentados terroristas contra os Estados Unidos no fatal dia 11/09/01,
os produtores procuraram evitar qualquer tipo de lembrança ou relacionamento
com o te rrorismo para não espantar o público dos cinemas. A cena
onde os habitantes de Prosperity se refugiam desesperadamente num shopping lembra
“O Despertar dos Mortos” (Dawn of the Dead 1979) de George Romero,
onde os sobreviventes de uma invasão de zumbis assassinos se isola também
num shopping tentando se salvarem de um ataque maciço de mortos-vivos.
A invasão das aranhas na cidade lembra uma cena similar de “Tropas
Estelares” (Starship Troopers, 1998) de Paul Verhoeven, onde um grupo
de soldados se isola num forte abandonado no deserto de um planeta, e são
surpreendidos por uma invasão descomunal de insetos gigantes. Uma sequência
muito engraçada de “Malditas Aranhas!” é quando um
grupo de aracnídeos invade uma loja e vão matando pessoas e animais
pelo caminho e uma das aranhas ataca a cabeça de um alce pendurada como
troféu na parede e após comer um pouco de matéria inanimada,
acaba cuspindo em reprovação numa cena hilariante. Outro grande
destaque é quando um grupo de aranh as ataca e persegue ferozmente vários
motoqueiros pelas areias do deserto, saltando com grande agilidade e velocidade
que chega até a superar as motos transformando seus condutores em vítimas
fatais de suas garras. Todas as cenas com as aranhas são muito realistas,
graças aos modernos efeitos especiais, e basicamente vemos cinco categorias
de aracnídeos com as que andam no teto e paredes, as que capturam suas
presas em buracos escondidos no chão, as saltadeiras com incrível
agilidade nos pulos, as que empurram as coisas à sua frente, e as terríveis
e mais perigosas que imobilizam as vítimas com suas teias para comê-las
vivas depois no ninho da rainha. Os ruídos engraçados que as aranhas
emitem são criação da equipe de produção,
e esses estranhos zunidos acabaram causando um tom humorístico nas cenas
em que apareciam. Várias foram as homenagens como por exemplo o papagaio
do criador das aranhas exóticas, que vivia repetindo “Eu vejo pessoas
mortas”, numa citação ao filme “O S exto Sentido”
(The Sixth Sense, 1999) de M. Night Shyamalan, passando por “Sexta-Feira
13” com um dos sobreviventes da chacina das aranhas tentando se defender
do ataque se fantasiando de Jason Voorhees com a máscara de hóquei,
e envolvendo até o herói “Homem-Aranha” num inteligente
trocadilho proferido por um dos personagens. Outra homenagem notável
foi para o clássico da ficção científica “Vampiros
de Almas” (Invasion of the Body Snatchers, 1956) de Don Siegel, na cena
onde o personagem Chris McCormack grita em desespero para um telefone de emergência
na tentativa de alertar o mundo que sua cidade estava sendo invadida por aranhas
gigantes, “Eles estão aqui!”, numa referência à
paranóia da invasão comunista dos anos 50, e também na
cena onde aparecem os cadáveres das vítimas das aranhas presos
em casulos de teias, lembrando as “vagens” alienígenas do
mesmo filme. Ainda teve uma outra curiosidade interessante que foi uma citação
ao assassino Lee Harvey Oswald, que supostame nte matou o presidente dos Estados
Unidos John F. Kennedy em 1963, numa cena em que o assistente da xerife está
separando algumas armas para enfrentar o ataque das aranhas e encontra o rifle
do famoso assassino perdido no meio de um armário. Enfim, “Malditas
Aranhas!” é super divertido, com muita ação, correrias,
perseguições, aranhas enormes, cenas de humor bem colocadas e
sutis, além de muitas citações, referências e homenagens.
É claro que desfilam todos os clichês característicos de
filmes com temática similar, com personagens banais, diálogos
óbvios, situações previsíveis, porém nota-se
claramente que a intenção é homenagear e principalmente
divertir, com uma típica história de invasão de insetos
gigantes em mais um filme do sub-gênero “Big Bug” que foi
largamente explorado pelo cinema há 50 anos atrás, porém
dessa vez moderno e com um orçamento infinitamente superior, além
de muitas aranhas gigantes, monstruosas e famintas..."