Henrique Miura (e-mail), Leitor do Adoro Cinema - Nota 7:

"Depois das três horas e 10 minutos de duração de "Malcolm X", assumo que fiquei perplexo e na realidade tinha dúvidas se tinha ou não gostado do filme. Fiquei na dúvida se o filme nada mais era do que uma fita propaganda para firmar Malcolm X como um herói extremista ou um filme biográfico que conta uma história fazendo uma forte crítica aos EUA. Depois de pensar e refletir muito sobre o filme, cheguei a conclusão de que "Malcolm X" tem de tudo um pouco e é um filme cheio de erros e acertos, ou altos e baixos. A história do herói negro afro-americano Malcolm X é narrada minuciosamente pelo paranóico e alienado Spike Lee, eterno defensor dos negros nos EUA.

Como de costume nos filmes de Lee ousadia é o que não falta para contar a história, atirando para todos os lados. Porém, o desabafo do filme acaba sendo um pouco exagerado e, assim como as atitudes do personagem, muito extremista. Esse exagero se torna muito incômodo e nem parece mais ser uma história real. Ok, os negros sofreram (e ainda sofrem) muito com o preconceito racial, porém é preciso ter consciência daquilo que irá retratar no filme e Lee se excede demais e acaba sendo injusto. O grito de justiça dado pelo diretor parece jogar o contrário da idéia "pacifista".

Vamos aos fatos: Malcolm X (Denzel Washington) teve uma infância muito difícil. Ainda bem pequeno teve seu pai assassinado violentamente por membros do KKK e passou uma forte dificuldade financeira. Como o filme explica o fato, "ele até achava que 'venda proibida' era a marca dos produtos". Malcolm acaba sendo separado dos irmãos e começa a estudar, mas os conselhos de seu professor o desmoralizam por causa de sua cor e ele acaba desistindo da idéia de ser advogado. O tempo passa e Malcolm vira um malandro drogado, que acaba se dando mal por sair com uma mulher branca (assim como um amigo).

Condenado a uma longa pena, dentro da prisão Malcolm X se converte para a religião mulçumana e começa a ser o seguidor de Elijah Muhammad (Al Freeman Jr.). Malcolm começa a fazer sucesso ao pregar o islamismo e lutar por justiça e se casa com Betty Shabazz (Angela Bassett), com quem tem várias filhas. Contudo, alguns desentendimentos acabam o prejudicando completamente e ele abandona seu cargo e parte para Meca, conhecendo o verdadeiro islamismo. Porém, as ameaças não param e sua vida continua correndo perigo.

Spike Lee insiste na mesma idéia de seus outros filmes e dá um forte soco na hipocrisia norte-americana. A cinebiografia de um dos maiores heróis negros da história do país não poderia ser contada por outra pessoa a não ser por Lee. Porém, o único diferencial deste filme para outros do tipo é que este é uma história verídica e que temos a soberba atuação de Denzel Washington. No mais, filmes como "Mississipi em Chamas" deixa "Malcolm X" no chinelo. Não que isso seja uma desqualificação, mas "Malcolm X" deixa um gostinho amargo de decepção, entretanto qualidade é o que não lhe falta.

"Malcolm X" consegue deixar o espectador angustiado e envolvido com toda a história do personagem e apresenta com bastante clareza todas as situações vividas pelo próprio, mostrando com extrema categoria a queda e a ascensão de Malcolm X, que chegou a se tornar um dos maiores revolucionários negros "anti-racismo" nos EUA. Sendo formado basicamente apenas por clichês (muitas cenas vão parecer apenas um dèja-vu), o que permanecerá imortalizado no filme será a estupenda atuação de Denzel Washington, que carrega o filme com paixão e emoção verdadeira. Resumindo: um tenso e bonito trabalho que poderia ser mais emotivo ou bom filme e nada mais."