Percival Panzoldo de Carvalho (e-mail), Leitor do Adoro Cinema - Nota 9:

""Magnólia" conta várias histórias simultaneamente, que com o decorrer do filme passam a se enterligar. A opinião geral foi de que o filme é "down" e depressivo, e absolutamente inconseqüente ao chegar na famosa chuva de sapos. Mas será que um filme desse, com o mesmo diretor do aplaudido "Boogie Nights" e atores de porte como Julianne Moore, vai mostrar algo tão vazio? Vejamos. Todos os personagens vão, com o passar da história, em direção a situações patéticas ou desumanas. Por exemplo: Jimmy Gator (Philip Baker Hall), apresentador de um famoso programa de televisão, recebe a informação de que não terá mais de dois meses de vida, e agora quer confessar-se de todos os seus males com sua mulher para deixar o mínimo de sinceridade e verdade em sua vida, acabando por dizer a ela que molestou sua filha. Além disso, o centro do show do programa de Gator, Stanley Spector (Jeremy Blackman), BORDER="0" SCROLLING="no" FRAMEBORDER="0"> uma criança superdotada de dez anos, analisa sua pequena vida e vê como sua função na TV é de um mero brinquedo que diz coisas inteligentes. Entretanto, seu pai o pressiona ao máximo para conseguir o recorde do programa, o que lhe forneceria bastante dinheiro às custas do filho gênio (e ingênuo). Tudo remete a uma situação malíssima, não? E como isso se relaciona com a chuva de sapos?

Temos bastantes dicas para essas respostas; entre elas, o inicio do show de Jimmy Gator, onde se pode ver, na platéia, um velho segurando uma plaqueta onde se lê "Êxodus 8:2". Uma alusão à Biblia? Tudo indica que sim. O trecho bíblico exibe uma das condições em que uma tal chuva de répteis aconteceria numa das pragas do apocalipse. Aliás, várias partes do filme mostram constantes aparições dos números 8 e 2. Todos os outros personagens mostram-se fracos em algum sentido, entre eles o papel intepretado por Tom Cruise, um líder machista de auto-ajuda. É nesse clima que surge a chuva, com sapos destruindo toda rua Magnólia, e o restante da cidade também, provavelmente.

Tudo isso parece macabro, mas no entanto a chuva tem um aspecto de melhoria da vida dessas pessoas. Uma rápida análise leva a essa conclusão. É só perguntar se com a violenta chuva algum dos personagens morreu. A cena da tentativa de suicídio de Jimmy Gator também foi extremamente inteligente: quando Gator está prestes a apertar o gatilho contra sua própria cabeça, um dos bilhares de sapos cai do céu e colide exatamente com o revólver, atrapalhando a ação de Jimmy, o que dá um impacto contrário à idéia de morte (o que me lembrou o filme "A Felicidade Não Se Compra", onde um anjo intervém no suicídio do personagem central). É interessante notar também que nesse lance, a arma acaba disparando no meio de uma televisão, símbolo que o consagrou como apresentador, tornando-o rico. Todos esses elementos surreais fazem com que as pessoas do filme reflitam sobre suas vidas.

Com isso, pergunto novamente: o filme é realmente tão depressivo? Sua estética, digamos assim, pode ser escura, mas a mensagem do filme de forma alguma. A linguagem, entretanto, foi o que consagrou "Magnólia", já que Anderson fez exímio proveito das câmeras e dos símbolos colocados em seu roteiro. A última cena, ainda, mostra o contrário do decadente: um outro personagem chamado Jim Kurring fala à Claudia (Melora Waters) que não permite que ela se auto-despreze e que irá sempre amá-la, o que não é, definitivamente, depressivo.

P.T. Anderson dirigiu perfeitamente uma história de personagens tão complexos e merece ser louvado como uma das revelações no cinema dos anos 90. Vale destacar também a trilha sonora do filme, quase integralmente constituída de canções da cantora de pop Aimee Mann. Afinal, não só as músicas são belas, como o próprio Anderson escreveu o roteiro de "Magnólia" baseado nas composições de Mann."