João de Andrade, Leitor do Adoro Cinema
- Nota 7:
"MADAMA SATÃ NÃO LEVA DESAFORO PRA
CASA
Por João de Andrade
Nas primeiras cenas de Madama Satã (Brasil/França,
2002), o telespectador logo tem a noção do que esperar durante
cerca de uma hora e quarenta minutos de filme. A cena de Madame Satã/
João Francisco dos Santos espancado ao som de sua ‘ficha corrida’
sendo transmitida por um policial, expõe toda agressividade e impacto
deste primeiro longa do diretor Karin Ainouz. Ainouz optou por mostrar a fase
anterior ao surgimento do mito Madame Satã. Ambientado no bairro carioca
‘barra pesada’ da Lapa da década de trinta, o filme mostra
o período de transformação de João Francisco dos
Santos. Homossexual, transformista, malandro, nordestino e negro, o personagem
título sofre todo tipo de preconceito que uma pessoa pode receber. Mas
mesmo assim, procura viver a vida da melhor maneira possível, sofrendo
com as dificuldades, não levando desaforo pra casa, mas sempre disposto
a procurar uma felicidade, mesmo que efêmera numa apresentação
como transformista no bar ‘chinfrim’ do amigo. Forte ao extremo,
a obra de Ainouz impressiona pelo realismo e erotismo nas cenas de homossexualismo,
provocando um certo constrangimento até mesmo naqueles ditos ‘moderninhos’
(em Cannes onde foi apresentado, jornalistas se retiraram da sala de projeção
com cenas de sexo entre dois homens). No entanto tais cenas, pesadas ou não,
nada tem haver com uma possível apelação, sendo totalmente
compatíveis com sua temática, o que é mais um ponto positivo
para o diretor. Alias, a parte técnica do filme é excelente, méritos
principalmente para Walter Carvalho, responsável pela fotografia. Como
a história se passa quase que totalmente no período noturno, Carvalho
fez uso de cores fortes, abusando e se saindo com sucesso no uso do vermelho
e do preto. A montagem, responsabilidade de Isabel Monteiro de Castro, também
merece elogios. Alguns cortes de cenas e tomadas como a que João olha
para um céu azul e ao mesmo tempo vazio, após receber uma notícia
desagradável, são ao mesmo tempo excessivamente simples e belas.
Porém o melhor de Madame Satã, não esta no roteiro, montagem,
fotografia, nem em nada do que foi mencionado anteriormente. As atuações
de Lázaro Ramos no papel de Madame Satã, assim como os coadjuvantes:
Marcélia Cartaxo(Laurita), Flávio Bauraqui (Tabu), Fellipe Marques
(Renatinho) e Emiliano Queiroz(Amador) são primorosas. Lázaro
no entanto merece um destaque especial, não só pelo fato de representar
o personagem título, mas pela total dedicação com que o
ator se entregou para esse trabalho, representando de forma extremamente forte
e intensa. Lázaro atua não só com o texto e expressões,
mas com todo o sentimento de revolta, alegria, ódio e desenvoltura que
o personagem exige, numa mistura ao mesmo tempo explosiva e espetacular. No
entanto, o filme possui seus pecados. Talvez por retratar apenas a fase de transformação,
enfocando apenas um ano da vida de Satã (1932), o filme perde um pouco
no que concerne em exploração do personagem, dando a impressão
de que faltou algo ao filme, deixando para quem sai da sala de exibição
uma sensação de certo vazio. Além disso certas cenas são
um pouco longas, se arrastando no roteiro. Por fim Madame Satã é
mais um bom filme que representa, junto com Cidade de Deus e o Invasor, esta
nova safra do cinema nacional com temas evocando um lado pouco ‘cor de
rosa’ e agradável de se ver, mas que existe quer e precisa ser
mostrado nas telas, abrindo cada vez mais espaços a atores negros, que
vêm dando o seu recado com maestria."