Em comemoração de aniversário nada melhor e mais saudável do que chamar os velhos amigos para festejar em grande estilo.
Assim faz a Berlinale em sua mostra Retrospectiva. Este ano não se trata de escolher filmes com o compromisso em espelhar uma tendência política desta ou daquela década. Este ano o clima é de comemoração e nada melhor do que com filmes de amigos de longas datas, filmes vencedores e marcantes ao longo destes 60 anos de festival. Entre os escolhidos está Central do Brasil, filme que em 1998 arrebatou público e crítica na cidade e tornou Berlim solo doméstico do cinema brasileiro. Sem falar na aclamação dada a Fernanda Montenegro, que consquistou não só o Urso de Prata. Mais do que isso: conquistou o coração desta cidade, que até hoje a venera.
A projeção aconteceu hoje às 15 horas, horário local. Uma ótima chance para rever as cenas inesquecivéis de picuinha entre Dora e Josué. Sem falar nas deliciosas cenas entre Dora (Fernanda Montenegro) e Irene (Marília Pêra).
Como não poderia deixar de ser, a Retrospectiva nos possibilita rever grandes momentos do festival. Claro que para espelhar 60 anos de história seriam necessários mais filmes em quantidade, o que não é possível pela curta duração do festival.
Um dos momentos memoráveis ao longo dos anos foi a premiação da atriz francesa Jeanne Moreau, na cinquentésima Berlinale. A musa da "Nouvelle Vague", grande dama do cinema francês e recentemente homenageada no Festival do Rio, teve na Berlinale um dos seus momentos de glória acompanhada de Marcelo Mastroianni, no filme de Michelangelo Antonioni A Noite, que acabou em 1962 com o Urso de Ouro de melhor filme. Naquela época o festival acontecia sob turbulentas situações políticas. Poucas semanas depois do fim do festival, o Muro de Berlim seria construído praticamente da noite pro dia 13 de agosto.
Na tarde de ontem foi exibido o filme cult O Império dos Sentidos, do diretor japonês Nagisa Oshima. No ano de sua exibição na Berlinale (1977), ainda durante a projeção, o promotor de justiça apreendeu o filme e processou o ex diretor da Mostra "Fórum", Ulrich Gregor, por "propagação de pornografia". A promotoria queria a todo o custo evitar a distribuição do filme na Alemanha, por isso recorreu até a maior instância judicial na cidade de Karlsruhe, sudeste da Alemanha. Depois de muita celeuma, o filme foi oficialmente considerado arte, livrando Gregor de uns meses atrás das grades. O mesmo se fez presente ontem no cinema, contando detalhadamente a história, levando a audiência a boas risadas. Uma delas causada pelo fato que, depois da apreensão do filme, precisou-se rapidamente requerer uma outra cópia do distribuidor em Paris. A cópia foi sim enviada de Paris, mas com um nome falso, por medo de uma nova represália implicando no cancelamento das duas projeções planejadas.
Sob o lema "PLAY IT AGAIN", abaixo uma seleção de filmes a serem exibidos:
* O Império dos Sentidos, França/Japão, 1976
* Storia di Piera, Marco Ferreri /Coprodução Itália/França, 1982/1983
* Do Outro Lado, Fatih Akin / Coprodução Alemanha/Itália/Turquia, 2006/2007
* Lili Marleen, Rainer Werner Fassbinder / Alemanha, 1980/1981
* Rio das Mortes, Rainer Werner Fassbinder / Alemanha, 1970/71
* O Casamento de Eva Maria Braun, Rainer Werner Fassbinder / Alemanha, 1978/1979
* Longe Dela, Sarah Polley / Coprodução Canadá / Inglaterra / EUA, 2006
* Il Cristo Proibito, Curzio Malaparte /Itália, 1950/1951
* Gangues de Nova York, Martin Scorsese / EUA, 2000-2002
* Além da Linha Vermelha, Terrence Malick, EUA, 1997/1998
* O Segredo de Mary Relly, Stephan Frears, EUA 1996
O britânico David Thomson, curador da Retrospectiva, está convencido que o filme O Segredo de Mary Relly, dirigido por Stephen Frears, com Julia Roberts no papel principal, não ganhou a atenção merecida na Berlinale de 1996. Por isso, quis reprisá-lo. A plateia será contemplada com a presença ao vivo da atriz Jeanne Moreau e do diretor inglês Stephen Frears, que em conversa com o público vão contar, no prédio da Cinemateca alema, sobre suas respectivas carreiras.
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Este filme transpira sensibilidade. Neste caso, sensibilidade da diretora e dos protagonistas. Quem viu a menina Sarah Polley, aos 9 anos, no filme de 1988 As Aventuras do Barão de Münchausen não poderia prever a diretora madura que esta atriz viria a se tornar aos 27 anos. Sarah mostra que aprendeu tudo com a catalã Isabel Coixet, que a dirigiu com maestria nos tocantes filmes Minha Vida Sem Mim(2003) e A Vida Secreta das Palavras(2005). Perfeita a escolha do elenco. A inglesa Julie Christie dá um banho de interpretação e comove com a transformação de sua fisionomia, à medida que a doença avança. O desconhecido ator canadense Gordon Pincet nos deixa com um nó na garganta, como o aturdido marido da mulher doente. Sobretudo para quem viveu, ou observou de perto, o avanço do mal de Alzheimer num ente querido, Longe Dela é um filme muito, muito especial.