Filipe Furtado, Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:
"Extraordinária sátira à hipocrisia social
dirigida por Stanley Kubrick, "Laranja Mecânica" é um dos pouquíssimos filmes
que merecem ao meu ver a classificação de obra-prima sem pestanejar. A cada vez que eu o
reassisto acho novos aspectos que o tornam uma realização brilhante, quase sem erros
(quase pois o filme se arrasta ligeiramente na parte final).
Como todos sabem, trata-se da saga de Alex deLarge (MacDowell),
delinquente juvenil que após ser traído pelos membros de sua gangue, vai para a cadeia e
lá se oferece a um tratamento que o "condicionará ao bem". Livre do mal, ele
é solto de volta à sociedade que dele se vingara.
É impressionante o domínio exercido por Kubrick sobre seu filme.
Tematicamente, é um grande ataque à hipocrisia. A sociedade que considerou Alex um
criminoso violento e perigoso se revela ao fim tão violenta quanto ele. A prisão para o
qual ele é enviado com o objetivo formal de ser "regenerado" é, nas palavras
do governador, "um instrumento de punição". O "tratamento" ao qual
Alex é exposto para torná-lo "bom" se mostrara um instrumento de
desumanização muito mais perigoso do que o próprio comportamento "mal" de
Alex. Não é a toa que depois do capelão do presídio, o anti-herói Alex é o
personagem mais simpático do filme. Já vi muitos dizerem que Alex, ao fim do filme, é
um sujeito curado e reintegrado à sociedade, mas considero que aqueles que o enxergam
assim acabaram por perder o ponto da abordagem cínica de Kubrick. Alex na verdade
continua, ao meu ver, sendo o mesmo delinqüente do início do filme, agora "intocável",
amparado por padrinhos poderosos.
MacDowell, excelente ator que raramente é bem aproveitado, é aqui
soberbo ao ponto de nunca mais ter se livrado de seu personagem. Os demais atores são
todos excelentes, apesar de nenhum deles ter tempo em cena suficiente para desenvolver
seus personagens.
O trabalho de criação da violenta Inglaterra futurista também é
perfeito. A combinação da direção de arte, figurinos, com a excelente fotografia de
John Alcott cria uma imagem de futuro realista como poucos do cinema. Arrisco a dizer que
o trabalho aqui é muito superior ao ultra-citado "Blade Runner", por exemplo.
Por fim, o trabalho impecável de direção de Kubrick. O diretor estava em sua melhor
fase, realizando antes dois outros filmes igualmente excepcionais ("Dr. Fantástico"
e "2001"). Pega-se como exemplo o fantástico uso da música ao longo de todo
filme ou a famosa cena do estupro, sua realização é tão perfeita que a despeito do
numero de Gene Kelly cantando "Singin´in the Rain" em "Cantando na chuva"
ser provavelmente a peça musical mais facilmente reconhecida que Hollywood já nos legou,
é impossível para qualquer um que já viu "Laranja..." não associá-la
primeiro a Alex cantando-a tranqüilamente enquanto estupra a mulher do escritor.
Parte de mim se tenta a dizer que "Laranja Mecânica" é o
maior trabalho de Kubrick, mas comparando, considero "Dr. Fantástico" mais
redondo como todo. É inegável porém seu status como um dos mais eficientes, ao mesmo
tempo perturbador e divertidíssimo, já realizados."