Henrique Miura (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 9:
"Krzysztof
Kieslowski continua com muita inteligência a saga sobre os ideais da Revolução
Francesa, representados através das cores do país. Depois do brilhantismo
mostrado no marcante "A Liberdade é Azul", o diretor polonês
Kieslowski discute a igualdade usando a cor branca. Aqui temos, assim como no
primeiro filme da trilogia, uma pequena distribuição de personagens.
A trama é 100% voltada ao protagonista e seus atos, passando a acompanhar
toda a trajetória feita por ele depois de um fato importante alterado
em sua vida. Kieslowski mais uma vez mostra uma capacidade imensa na composição
dos argumentos do roteiro e, na direção, sua maneira em perturbar
o espectador é exatamente igual à utilizada no filme anterior.
Aqui acompanhamos o rumo que levou
a vida de Karol (Zbigniew Zamachowski) após o divórcio pedido
pela mulher, que ele não conseguiu deixar de amar. Karol sente na pele
a rejeição, a miséria e a falta de incentivo na vida. O
tempo passa e Karol consegue dar a volta por cima, mas sua ex-mulher continua
a lhe ignorar. Assim, ele deixa Paris para voltar a seu país natal, a
Polônia, onde começa a reconstruir sua vida. Seus negócios
vão bem e dinheiro é o que não falta mais em sua vida,
porém as dores amorosas ainda são sentidas. Karol bola então
um diabólico plano para se vingar de sua amada.
"A
Igualdade é Branca" não chega a ter toda a genialidade e
melancolia que tem o "A Liberdade é Azul", porém o filme
cumpre perfeitamente sua idéia. As cenas são frias e algumas possuem
um humor negro que persiste durante boa parte da duração do filme.
Ao mesmo tempo em que soam engraçadas, as seqüências rodadas
com precisão por Kieslowski são genialmente reflexivas e discutíveis.
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O personagem sofre constantes alterações em sua vida, o que altera
respectivamente sua personalidade e seu caráter. É empolgante
também ver os rumos que o roteiro leva à vida de Karol, onde sua
volta por cima passa a ser também um grande peso em sua consciência.
O final da fita é perturbador e merece ser bastante pensado.
Em "A Igualdade é Branca"
Kieslowski contou com muitos membros da equipe que trabalhou também em
"A Liberdade é Azul". A fotografia aqui é de Edward
Klosinski. Mesmo não sendo o mesmo que fotografou o anterior, a fotografia
tem os mesmo tons e são praticamente idênticas. A trilha sonora
continuou com Zbigniew Preisner, que fez um trabalho plausível em "A
Liberdade é Azul", sendo que aqui seu trabalho foi mais discreto
mas não menos competente. A combinação de ritmo entre produção
e direção é o destaque maior na fita. Conduzido lentamente
e composto de apresentações em diálogos, é preciso
uma certa paciência para acompanhar o filme com toda a atenção
necessária. Se você ficar preso na história e nas idéias
do filme, rapidamente você irá ficar envolvido com toda a trama
que cerca o protagonista. Se isso acontecer, "A Igualdade é Branca"
não irá decepcionar.
"A
Igualdade é Branca" rendeu para Kieslowski o Urso de Prata de Melhor
Diretor no Festival de Berlim. Essa segunda parte da trilogia (que é
encerrada com "A Fraternidade é Vermelha") sobre os ideais
da Revolução Francesa teve a mesma boa recepção
pelo público e pela crítica em festivais que tiveram os outros
filmes, porém este não teve tanta sorte em premiações,
como tiveram os outros dois filmes da trilogia. O humanismo e a sensibilidade
marcante de Kieslowski continuam intactos nesta fita, que merece ser conferida
por suas excelentes idéias e características. Ainda temos aquele
tipo de final que é conquistador. Um filme imperdível."