Júlio dos Anjos Jr. (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 7:
"Mais um longa produzido pela Casa de Cinema
de Porto Alegre, da qual o roteirista e diretor Jorge Furtado é um dos
fundadores, Houve Uma Vez Dois Verões (Brasil, 2002) é uma comédia
que mostra o conturbado relacionamento entre o adolescente Chico (André
Arteche) e a jovem Roza (assim mesmo, com z), interpretada por Ana Maria Mainieri.
Chico passa as férias com a família na maior
praia do mundo, a praia do Cassino, no Rio Grande do Sul, porém em final
de temporada, em março, pois é mais barato e a família
não consegue arcar com os custos das férias em janeiro. Ao lado
de seu amigo Juca (Pedro Furtado, filho do diretor), Chico passa os dias entre
a praia semi-deserta e os fliperamas. É numa dessas casas de jogos que
ele conhece Roza e convida-a para comer um churros. Uma coisa leva à
outra, um churros é um objeto fálico e Chico acaba perdendo a
virgindade. Depois dessa noite, o garoto não encontra Roza. O verão
acabou, Chico voltou para Porto Alegre e meses se passaram até que ele
recebe um telefonema de Roza marcando um encontro. A partir daí, o roteiro
começa a dar uma série de reviravoltas. Encontros, desencontros
e descobertas recheiam o filme.
Um filme curtinho (não chega à 1 hora e 15
minutos), Houve Uma Vez Dois Verões é uma comédia adolescente,
como não se costuma ver na cinematografia brasileira. Leve e divertido,
apresenta um elenco competente, encabeçado por André Arteche.
Estreante no cinema, André fez um bom trabalho, mesmo assim, não
chega nem perto de Ana Maria Mainieri. Apesar de jovem, Ana já é
figurinha carimbada do cinema gaúcho. Apareceu para o Brasil em Tolerância,
de Carlos Gerbase, e já fez muitas participações em curtas,
além de episódios da série Contos de Inverno e Histórias
Curtas exibidas pela RBS TV. Quem realmente se destaca no filme é Pedro
Furtado. A cara do pai, Pedro é o personagem mais engraçado do
filme, responsável por tiradas sarcásticas e precisas.
Apesar deste não ser seu melhor trabalho, Jorge Furtado
é um cineasta que merece respeito e um de meus favoritos. Ele fez fama
com uma grande quantidade de ótimos curtas, entre eles o mais premiado
curta brasileiro, o fantástico Ilha das Flores. Consagrado, Furtado foi
importado pela Rede Globo, onde escreveu o roteiro da minissérie A Invenção
do Brasil, dirigida por Guel Arraes e que acaba de ser lançada como longa
(seguindo os passos do sucesso O Auto da Compadecida).
Houve Uma Vez Dois Verões é o primeiro longa-metragem
de Jorge Furtado e o segundo produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre (o
primeiro foi Tolerância). O filme lembra um pouco o mexicano E Sua Mãe
Também, principalmente devido ao relacionamento entre os amigos adolescentes
e a fotografia que abusa de cores fortes e berrantes. Um dos únicos problemas
da produção é a qualidade de imagem. O filme foi totalmente
produzido em câmera digital, o que lhe deixa com uma imagem abaixo do
normal que o espectador está acostumado. Isso não é problema
para quem acostumou-se a assistir filmes como os do Manifesto Dogma 95 (Festa
de Família, Mifune, O Rei Está Vivo, Os Idiotas, entre outros),
que são “filmados” neste formato. Infelizmente, o
cinema nacional ainda é alvo de preconceitos e este é o tipo de
coisa que já dá margem à críticas por parte daqueles
que assistem a filmes nacionais esperando amadorismo. Agora, se você quer
saber porquê filmes tem sido feitos neste formato digital, a resposta
é simples: primeiro porque o custo da produção é
reduzido de maneira brutal. Isso em um país com tantas dificuldades para
arrecadação de recursos para projetos cinematográficos
é uma saída oportuna e quase inevitável. É uma maneira
rápida e barata de fazer e exibir nossos filmes. Em segundo lugar está
o fato de que a produção digital é uma tendência
mundial. Além do Dogma 95 já citado, os filmes em câmera
digital estão por todo lado. A Bruxa de Blair mostrou ao mundo que o
público iria ao cinema assistir um filme em VHS. O próprio A Invenção
do Brasil foi produzido em HDTV, porém com mais recursos de conversão
para 35mm (olha a Globo aí, gente!). A atriz Lucélia Santos dirigiu
um documentário sobre o Timor Leste em digital que em breve estará
nos cinemas.
Porém, todos os recursos podem ser esquecidos caso
um dos princípios básicos do cinema não for respeitado:
o que prende o público é uma boa história. Todos os recursos
do mundo não adiantam de nada quando não temos uma boa história
em frente aos nossos olhos. Quanto a isso podemos ficar descansados que os gaúchos
ainda são ótimos contadores de causos, como Jorge Furtado está
aí para nos provar."