Ary Luiz Dalazen Jr. (e-mail),
Leitor do Adoro Cinema - Nota 6:
"Existe uma lei certa e ativa
no mundo do cinema: a continuação de um bom filme nunca consegue
superar em termos de qualidade o primeiro da série. Existem algumas exceções
raríssimas, como no caso de "O Poderoso Chefão", mas
quase sempre as seqüências de sucessos do cinema são massacradas
por crítica e ignorada pelo grande público.
No gênero terror, o exemplo mais claro disto é
o que aconteceu com um pequeno clássico que fez um sucesso estrondoso
na época de seu lançamento: "Sexta-Feira 13". O primeiro
filme era razoavelmente bem produzido e mantinha um clima opressor de suspense,
lembrando em alguns momentos mais inspirados o clássico "Amargo
Pesadelo", mas toda a idéia acabou se tornando uma piada graças
a uma série de seqüências cinematográficas "caça-níqueis"
e de baixo nível (e para quem acha que já viu de tudo, pode se
preparar pois a bomba "Jason X" será lançada ainda este
ano nos Estados Unidos, desta vez com o maluco aterrorizando uma nave espacial
- isso mesmo!). "Hellraiser - Renascido do Inferno", a polêmica
estréia nas telas do inglês Clive Barker, gerou uma continuação
melhor que o primeiro, ainda mais violenta e brutal ("Hellbound: Hellraiser
2"), mas a partir do terceiro capítulo todo o sentimento de medo
genuíno e de originalidade que Barker desenvolveu com tanto esforço
nos dois primeiros filmes foi para o buraco.
Se fazer a continuação de um sucesso de crítica
e público já é difícil, imagine a de um filme de
terror. "Hannibal" é vítima da mesma maldição
das "seqüências ruins" e certamente está pagando
o preço de sua mediocridade: depois de uma estréia barulhenta,
a produção está morrendo aos poucos nas bilheterias, pois
quem já gastou seu dinheiro no ingresso constatou que é mesmo
ruim e recomenda aos amigos para que não assistam a tamanha bomba. É
difícil enumerar todos os pontos onde a produção errou
feio, e ainda mais difícil acreditar que a combinação de
tamanhos talentos na equipe técnica e no elenco tenha resultado em tamanha
decepção.
Declinar o papel da agente Clarice Starling foi a escolha
mais acertada que Jodie Foster fez em sua vida. A atriz, que já não
faz mais um bom filme há uns sete anos, teria embarcado numa barca furada
aceitando o papel. Ela ganhou mais dez anos de carreira com a sua recusa. Sem
Foster, a antipática e péssima Julianne Moore assume o papel e
só piora as coisas, construindo uma Starling apática, fraca, sem
luz, que passa quase a metade do filme parada sem fazer absolutamente nada.
Hopkins, por sua vez, é um dos atores mais superestimados que já
vi nos últimos tempos, e aqui ele não poupa exageros e maneirismos
para transformar o seu personagem, que em "O Silêncio dos Inocentes"
era um sujeito ameaçador, em um psicopata bon-vivant, grã-fino
e pseudo-intelectual, que sabe com talento enganar seus algozes e operar cérebros
alheios. Hopkins parece querer criar uma caricatura do personagem que o consagrou.
Um ator que realmente teria feito miséria como Lecter nesta continuação
seria o subestimado Burt Reynolds, que saberia como ninguém calar a boca
de qualquer ser humano apenas com um olhar.
O filme ganha força pela atuação de
dois atores muito talentosos que, contudo, possuem pouco tempo em cena: Gary
Oldman, que está excelente como o milionário desfigurado Mason
Verger, e Ray Liotta (dono da cena mais repugnante e violenta de todas). No
pouco que tem para trabalhar em cima, Oldman e Liotta se saem bem e ofuscam
os dois protagonistas. O roteiro de Steve Zaillan, bastante confuso, peca pela
lentidão excessiva, além de parecer querer a todo tempo criar
desculpas para mostrar cenas de sanguinolência e assassinatos, o que acaba
ocasionando rombos enormes na estória. Zaillan não é o
único responsável pelo roteiro pouquíssimo inspirado, aliás
a culpa vem mesmo de Thomas Harris, autor do livro no qual a produção
se baseia. Dino De Laurentiis devia ter esquecido o romance e contratado um
bom roteirista para bolar uma estória nova e interessante, ao invés
de levar às telas algo que já era considerado medíocre.
Quanto à direção, o que se poderia
esperar de Ridley Scott, um cineasta advindo do mundo da publicidade que criou
extravagâncias visuais como "Alien - O Oitavo Passageiro", a
não ser muito estilo e cenas bombásticas? O problema de Scott
é que ele dedica muito de seu tempo à parte técnica, de
iluminação, enquadramento, etc., e acaba se esquecendo que um
diretor também deve saber contar uma estória.
No final das contas, "Hannibal" tem tudo aquilo
que qualquer sádico vai adorar: mutilações, homem cortando
o próprio rosto com caco de vidro, maníaco cortando pescoço
de pessoas, enfiando facas em estômagos, comendo o cérebro de outro
cara drogado, etc. A cena em que Ray Liotta é cruelmente torturado e
humilhado por Hopkins é um dos poucos momentos que realmente me marcaram,
e nos minutos em que esta cena ocorre pela primeira vez vi gente saindo da sala
durante o filme enojada. A morte do personagem de Liotta entra na história
como uma das coisas mais grosseiras, brutais e desnecessárias mostradas
em uma tela de cinema, ao lado do estupro de Ned Beatty em "Amargo Pesadelo"
e da cena em que um psiquiatra é destruído dentro dos braços
de uma mulher em "Hellbound Hellraiser 2". Se você é
um sádico e gosta de assistir tais coisas, alugue "Faces da Morte"
nas locadoras. Se você é uma pessoa comum que quer apenas assistir
a um bom filme de suspense, se afaste dessa porcaria e vá ver "Jogo
Duro", esse sim um filmão!"