Francisca Aldunate (e-mail), Leitora do Adoro Cinema - Nota 7:
"Na versão de 1990, nós temos um ótimo filme, mas
um grande erro. Os atores são ótimos e o filme tem grandiosidade, belíssimas cenas e
uma profundidade em algumas partes que foi mais longe que as outras duas versões. O
diretor Franco Zeffireli sempre foi muito respeitado pelos profissionais do cinema e
adaptou, com muito sucesso, outra obra de Shakespeare: "Romeu e Julieta" (1968).
O erro do diretor foi ter chamado para interpretar o príncipe dinamarquês o ator
americano Mel Gibson. Por que foi um erro? Apesar de ter sido uma das mais surpreendentes
atuações de Gibson no Cinema, sua escolha foi considerada uma "heresia", aos
olhos dos críticos. Em primeiro lugar, porque Shakespeare sempre foi representado por
ingleses, que, em teoria, sabem atuar melhor quando se trata o autor inglês. Tem-se esse
conceito por vários motivos, além da xenofobia natural que ingleses sentem por
americanos e vice-versa. Uma razão é o idioma. Apesar de Estados Unidos e Inglaterra
falarem a mesma língua, existem diferenças de pronúncia primordiais (como entre Brasil
e Portugal) que dariam aos ingleses uma certa "vantagem" ao declamar
Shakespeare, já que este escreveu suas peças no inglês britânico. Mas, apesar do
preconceito e da xenofobia contra os americanos, isso não é somente um capricho inglês
e leva-nos à segunda razão sobre a suposta "superioridade" inglesa quando se
trata de Shakespeare. É a Royal Shakespeare Academy, existente na Inglaterra,
dedicada somente à representação das obras shakespearianas, por onde passaram muitos
atores que hoje são considerados os melhores atores do mundo.
Nessa instituição, os atores aprendem diferentes técnicas de representação
relativas aos textos do dramaturgo; entre elas, existe o aprendizado de um dos mais
importantes métodos para se dizer os versos do bardo: o pentâmetro jâmbico. Todas as
peças de William Shakespeare foram escritas no estilo de narrativa do pentâmetro
jâmbico. Esse nome vem da junção de várias expressões: penta quer dizer cinco; metro,
medida e jâmbico é onde vai a sílaba tônica. Assim, o pentâmetro jâmbico é um modo
específico de se dizer o texto, onde cada verso é lido num fôlego de cinco partes,
dando-se maior ênfase nas últimas sílabas de cada palavra que constitui o pentâmetro.
O som assemelha-se a um sobe e desce constante. É uma técnica bastante complicada que se
aprende com alguns anos de estudo e dedicação.
Portanto, os ingleses julgam que os americanos, por não estudarem esse método, declamam
Shakespeare do modo errado, reduzindo muito a qualidade dramática do texto. E realmente
temos que dar o braço a torcer. Mel Gibson, preocupado em excesso com o pentâmetro,
acaba representando como um iniciante. As palavras não saem tão melodiosamente como
deveriam e chegam a parecer truncadas, reduzindo muito a sua interpretação. Por causa
desse rigor excessivo com a fala, que faz com que alguns dos melhores atores dos Estados
Unidos simplesmente "parem" quando ouvem o nome de Shakespeare, há muita
controvérsia entre artistas e estudiosos. Existem aqueles que defendem a manutenção do
pentâmetro e há quem diga que deve ser aprendido e depois jogado fora, mas todos
concordam que ter ao menos uma idéia de como ele funciona ajuda, e muito, a fazer um
texto mais fluido e expressivo. Senão, por que Shakespeare teria escrito suas peças
nesse sistema? Al Pacino, em seu filme "Ricardo III - Um ensaio", faz a
comprovação da eficácia do pentâmetro ao encenar cenas com e sem o uso da técnica.
Mas quem define com brilhantismo a manutenção desse método e sua serventia é a atriz
inglesa e shakespeariana Vanessa Redgrave, no mesmo filme de Pacino.
"A poesia de Shakespeare e seus versos jâmbicos flutuavam e desciam pelo pentâmetro
da alma. É a alma, se quiser o espírito, de pessoas de verdade sofrendo o inferno e, às
vezes, com momentos de grande realização e alegria. É nesse pentâmetro que devemos nos
concentrar. Se encontrarmos essa realidade, todos os versos jâmbicos se acomodarão."
Mas, mesmo com os problemas de "sotaque americano" de Gibson, esta versão não
deixa de ser um grande espetáculo. Com o texto reduzido para menos da metade,
apresenta-se de fácil compreensão para quem nunca viu Hamlet. A personalidade do
príncipe mostra-se um pouco diferente e ele age como se fosse uma criança. Diverte-se na
maior parte do tempo, embora muitas vezes ele exploda em acessos de cólera
incontroláveis. Não que ele não sofra, mas parece divertir-se em desafiar a ira e a
mágoa de todos que estão à sua volta. Até mesmo na última cena, a do duelo, quando
ele diz estar "pronto a tudo", denunciando um instinto suicida, determinado e
conformado com a morte, ele brinca e faz piadas com Laertes, antes de ser ferido
mortalmente por este e de ver a mãe morrer envenenada. Pode-se dizer que é o mais
sorridente Hamlet jamais visto no cinema."