Francisca Aldunate (e-mail), Leitora do Adoro Cinema - Nota 8:
"A versão de 1948 foi a primeira a ser filmada e
uma das primeiras a colocarem Shakespeare no cinema. No mesmo ano, Orson Welles fez
Macbeth, e ambos os filmes se parecem bastante nos recursos utilizados, como cenários e
interpretação do texto. Mas foi Olivier o precursor do dramaturgo inglês nas grandes
telas, o primeiro a ter a "coragem" de filmar Shakespeare. Diz-se coragem
errado
porque, até então, acreditava-se que peças de alto cunho dramático, como eram as do
poeta inglês, dificilmente seriam "sentidas" através de uma tela. Portanto,
Olivier foi o primeiro a provar que Shakespeare poderia tocar as pessoas tanto "ao
vivo" quanto no cinema ou na televisão. Apesar de bastante jovem, ele já era
considerado uma autoridade no assunto e conseguiu transmitir um príncipe bem diferente
dos outros dois que vieram depois. Neste filme, Hamlet sofre imensamente, o tempo todo.
Quando finge ser louco, quando fala com os demais personagens, até mesmo quando está
parado, parece que será sufocado pela angústia e mágoa. Ele não tem um minuto de paz,
não se diverte em momento algum, quase não sorri. É como se tivesse correntes que o
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prendem pelo pescoço, tirando-lhe os movimentos e as reações. É o mais distante Hamlet
do Cinema. Ele não está ligado a nenhuma outra pessoa. Nem à mãe, nem a Horácio, o
fantasma do pai ou Ofélia. Tem contas a acertar apenas consigo mesmo e com sua
consciência.
O cenário é bastante escuro, úmido e frio. Parece um cenário de teatro, todo
interligado por corredores e escadarias, sem interrupção, como se fosse um "teatro
filmado". A importância maior é dada ao texto (reduzido quase à metade) que às
ações, dando ao filme um caráter mais contemplativo, mental e filosófico. O elemento
mais inovador é a câmera, que parece contracenar com os atores. Talvez por isso, o filme
1948 pareça tão "convencional" aos olhos da modernidade de hoje em dia. Mas a
qualidade dramática da obra ou de Laurence Olivier, reconhecidamente um dos maiores
atores deste século, não é afetada em nada. É um grande filme, com grandes atores, um
grande roteiro de um grande escritor, vencedor dos Oscar de melhor filme, ator (Olivier),
direção de arte e figurinos."