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Walace Andrioli Guedes, Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:

"O que aprendemos sobre a história norte-americana nos livros e em filmes "patriotas" é sempre algo muito vago , que maqueia os fatos reais. Ficamos sabendo que o povo ianque recebia todos os imigrantes de braços abertos , como filhos que estavam voltando para casa , e temos a guerra civil travada naquele país como um ato heróico , uma batalha pela abolição da escravatura que era necessária naquele momento. Nunca ninguém no cinema Hollywoodiano ousou contradizer isso , e fomos recebendo , em seqüência , filmes de qualidade , porém muitas vezes mentirosos , que insistiam em distorcer os fatos. Como não lembrar dos feitos heróicos de "Tempo de Glória" , por exemplo , ou de "O Patriota" (que , apesar de tratar de outro período histórico , também maqueou muito a verdade , no caso sobre a independência norte-americana). Parecia inimaginável ser produzido um filme que mostrasse a realidade do período , a violência e a corrupção que tomavam conta do país. Mas havia um homem capaz de fazer isso , um diretor com a coragem suficiente para enfrentar todos os obstáculos e contar o que realmente aconteceu nesse período negro para os E.U.A. Martin Scorsese. Na década de 70 , enquanto ainda produzia "Taxi Driver" , Scorsese leu , e se encantou , pelo livro "The Gangs of New York" , de Herbert Ashbury , que descrevia , detalhadamente os fatos e crimes cometidos na época. O diretor , em ascenção em Hollywood , chegou a anunciar que essa seria seu próximo projeto. Mas os fracassos de obras grandiosas como "Apocalypse Now" e , principalmente , "O Portal do Paraíso" , fizeram com que o estúdio desistisse de financiar "Gangues". O tempo passou , Marty se firmou cada vez mais como um dos melhores diretores já surgidos em terras ianques , graças a filmes como "Touro Indomável" e "Os Bons Companheiros" , mas o sonho de levar o livro de Ashbury foi sendo adiado , e gradualmente esquecido. Depois de uma década de 90 positiva para o diretor (nesse período ele realizou filmes elogiados , como "Cassino" , "Cabo do Medo" , "A Época da Inocência" e "Os Bons Companheiros" , e outros nem tanto , mas que não chegaram a comprometer a imagem de Scorsese , como "Kundun" e "Vivendo no Limite") , ele enfim resolveu retomar o projeto. O principal incentivo para essa decisão foi a confirmação de Leonardo DiCaprio , que havia acabado de se tornar astro após "Titanic" , no elenco. Logo após , Daniel Day-Lewis foi convencido pelo diretor a abandonar sua prematura aposentadoria e a se juntar à equipe do filme. Mas "Gangues de Nova York" ainda teria que passar por vários obstáculos antes de chegar às telas de cinema. Primeiro foi a surpreendente decadência de DiCaprio , causada principalmente pelas bombas "O Homem da Máscara de Ferro" e "A Praia". Logo depois , o orçamento de 83 milhões de dólares estourou , e , quando o diretor enfim apresentou para Harvey Weinstein a primeira versão do filme , "Gangues" possuia 3 horas e 40 minutos de duração. Para fechar com chave de ouro a série de problemas , vieram os ataques terroristas de 11 de setembro , que deixaram o público norte-americano mais "sensível". Não seria fácil aceitar uma obra sangrenta , sobre vingança e que mostrava a verdadeira origem do país. Porém , Scorsese é um diretor de fibra , de personalidade , e que não desiste fácil. Afinal , para quem já passou por o que ele passou com o seu "A Última Tentação de Cristo" , o que vinha ocorrendo em "Gangues de Nova York" não era nada. Após ser adiada várias vezes , a produção finalmente chegou aos cinemas , em dezembro de 2002 nos E.U.A. , e em janeiro desse ano no Brasil. A bilheteria por lá não foi a esperada , o filme passou longe de conseguir se pagar (para isso precisaria faturar o triplo de seu custo). Mas o reconhecimento da crítica veio. Indicado a 5 Globos de Ouro , o filme levou dois prêmios para casa (diretor e canção original , para a bela música do U2 , "The Hands that Build America"). No Oscar , "Gangues" foi ainda melhor. Recebeu 10 indicações , incluindo melhor filme , diretor , ator (Daniel Day-Lewis) e roteiro. A trama gira em torno da disputa pelo território nova-iorquino , em meados do século XIX. Nesse período , duas gangues principais brigam pelo local chamado de Cinco Pontas. São elas : os Dead Rabbits , imigrantes irlandeses liderados pelo Priest Vallon (Liam Neeson , em participação mais do que especial) , e os Nativistas , os norte-americanos nativos , liderados por Bill "The Butcher" Cutting (Day-Lewis) , que desejam expulsar os imigrantes de Nova York. Bill mata Vallon , e o filho do 'pastor' , Amsterdam , testemunha tudo. Após isso , o 'Açougueiro' manda o garoto para um internato , e passa a dominar completamente o território. 16 anos se passam , e Amsterdam Vallon (Leonardo DiCaprio) , deixa o local onde passou grande parte de sua vida , retornando para as Cinco Pontas. Lá , começa a se infiltrar na gangue de Bill , ajudado por Johnny (Henry Thomas) , em busca de vingança. Mas o jovem Vallon desenvolve uma relação estranha com o algoz de seu pai , tornando-se uma espécie de pupilo do poderoso líder dos Nativistas. Ao mesmo tempo , os dois passam a disputar a atenção de Jenny Everdane (Cameron Diaz) , uma punguista. DiCaprio foi , sem dúvidas , uma boa escolha para o papel principal , mas não a ideal. Talvez um ator como Colin Farrell ficasse melhor como o revoltado Amsterdam , pois Leo parece desconfortável em alguns momentos. Não chega a comprometer , mas não rouba a cena como em "Prenda-me Se For Capaz" , filme também estrelado por ele e lançado quase simultaneamente a "Gangues". O mesmo não se pode dizer de Day-Lewis. Teoricamente , Bill deveria ser o vilão do filme , mas seu carisma é tão grande e sua presença , tão marcante , que acabamos torcendo por ele. Isso graças ao magnífico trabalho desse excepcional e perfeccionista ator , um dos melhores de sua geração (se não for o melhor). Cameron Diaz é outra que não se destaca mas não compromete. Mantém o bom nível alcançado por um elenco de apoio de dar inveja (John C. Reilly , Brendan Gleeson , Jim Broadbent , Henry Thomas , etc.) e consegue se firmar como uma das grandes estrelas da Hollywood atual. O roteiro , do trio Jay Cocks , Steve Zaillian e Kenneth Lonergan , desenvolve muito bem a história , e insere o contexto da época de maneira brilhante no filme. Confesso que , minha primeira impressão sobre isso não foi boa , mas ao reanalizar o trabalho dos três , e o resultado final , tenho que dar o braço a torcer e reconhecê-los. E não posso terminar sem falar de Scorsese. Já disse várias vezes e volto a dizer que esse é meu diretor favorito , e que tenho como exemplo. Marty é um profissional corajoso , que enfrenta o que for para realizar seus projetos , mas , acima de tudo , apaixonado por sua profissão. Se ganhar o Oscar dessa vez , não interessa se por correção de um erro passado da Academia ou por méritos de "Gangues de Nova York" , será mais do que merecido. Afinal , os gênios precisam ser reconhecidos. E não resta dúvidas de que valeu esperar todo esse tempo por essa obra-prima."