Paulo Kralik, Leitor do Adoro Cinema - Nota 3:
"Uma grande decepção. Martin
Scorsese, um dos diretores mais admirados pelos cinéfilos, com obras-primas
do calibre de TAXI DRIVER, O TOURO INDOMÁVEL, OS BONS COMPANHEIROS, A
ÉPOCA DA INOCÊNCIA, levou décadas para realizar seu sonho,
esse GANGUES DE NOVA YORK. A primeira decepção vem do roteiro.
Frouxo, mal amarrado, a história não apresenta motivações
suficientes para que sejam convincentes as carnificinas. Com um narrador (DiCaprio)
– recurso manjadíssimo – que tenta apenas ambientar as cenas,
apresenta inúmeros momentos constrangedores, como a dos enforcados que
vão quase saltitantes à morte, sem mais nem menos; ou como o ridículo
combate entre as duas unidades de bombeiros, na frente de um prédio que
se consome em chamas; ou ainda a personagem absurda e caricata da devoradora
de orelhas. Para não falar no final, piegas, que mostra o poder norte-americano
de conciliar os contrários, assim, de uma hora para outra, para poder
construir uma metrópole justa e multi-racial... balela! A segunda grande
decepção é a atuação de Daniel Day-Lewis,
ainda um dos atores mais completos da atualidade, que compõe um personagem
absolutamente caricatural. Over a não mais poder, o açougueiro
de Day-Lewis é inverossímil a cada fotograma, compondo o vilão
exagerado, careteiro e sem a menor sutileza. Daí também vem a
terceira grande decepção, que é a direção
de Scorsese. Além de conduzir mal o seu elenco – o que é
uma pena, pois a direção de atores sempre foi seu forte –
Scorsese se perde numa sangueira desmedida. Parece filme do John Woo, com combates
em câmera lenta e sangue espirrando por todos os lados, numa tentativa
inútil de mostrar realismo à platéia. Além disso,
há enquadramentos estilosos e forçados demais, além da
edição óbvia que insiste em alternar cenas sanguinolentas
com pedaços de carne no açougue do vilão. O tom de GANGUES
DE NOVA YORK oscila entre o drama e a comédia involuntária, já
que as cenas são tão gratuitas que parece que estamos a assistir
um pastiche, como aquelas lutas bagaceiras que dá no pay-per-view da
net. Personagens inverossímeis resultam na falta de identificação
da platéia. Não dá para torcer para ninguém, pois
eles transitam sem muito sentido, num roteiro previsível que intercala
luta e a tal vingança de Leonardo DiCaprio (que, incrivelmente, acaba
sendo o que se sai melhor do elenco principal, mesmo que seu romance com Cameron
Diaz seja absolutamente frio: não há a menor química entre
os dois). Vingança daquelas de filme de Charles Bronson: filho vê
o pai (Liam Neeson) ser morto e vai se vingar do assassino. Daí até
a óbvia cena clímax, muito sangue, muita machadada e facada e
pouco sentido. De positivo, a trilha sonora é belíssima, a reconstituição
dessa Nova York da metade final do século XIX é brilhante, a fotografia
e a direção de arte são pra ganhar o Oscar, alguns coadjuvantes
talentosos roubam a cena sempre que aparecem (como o excelente Jim Broadbent
– Oscar de coadjuvante por IRIS – que faz um político corrupto).
Do trio principal, Day-Lewis é a decepção, DiCaprio surpreendentemente
contido – mesmo que não resista a algumas caretas – e Cameron,
como atriz, continua muito bonita. GANGUES DE NOVA YORK é um exercício
doloroso para quem acompanha a cinematografia de Scorsese. Por tanta expectativa,
a decepção é inevitável. Fosse um filmeco B de algum
outro diretor, talvez nem incomodasse. Mas justamente por levar a assinatura
de um dos mais competentes diretores de cinema, é um prato feio, frio
e indigesto. Um banquete à base de carne e sangue, pretensioso e cabotino,
que se transforma em quase três horas desperdiçadas, em que nos
sentimos sendo fritados num fast food vagabundo de beira de estrada, quando
o nosso ingresso dizia que a refeição seria num daqueles restaurantes
chiques e de qualidade verdadeira. Saía, corra para a locadora e alugue
OS BONS COMPANHEIROS ou A ÉPOCA DA INOCÊNCIA. E aguarde o próximo
filme de Scorsese."