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    Ana. Sem Título
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Ana. Sem Título

    Há poesia na realidade

    por Barbara Demerov
    A exposição "Mulheres radicais: Arte latino-americana, 1960-1985", apresentada na Pinacoteca de São Paulo no ano de 2018, é o ponto de partida do novo filme de Lúcia Murat. Em Ana. Sem Título, documentário e ficção se fundem de maneira tão natural quanto verdadeira enquanto a diretora aborda a dura realidade de diversas mulheres durante a época da ditadura militar. Para expor esta temática de forma diferenciada, dando ênfase nas mulheres na arte, Stella Rabelo interpreta uma atriz que parte em uma extensa viagem pela América Latina. Tudo isso ao lado da própria Murat e a equipe técnica do filme.

    Ao visitar o museu, Stela (Rabelo) se depara com a obra que dá título ao filme: uma série de fotografias da artista plástica Ana (Roberta Estrela D'Alva), registrada em 1968. Imediatamente, a protagonista desta experiência tão rica e complexa -- ao mesmo tempo que sensível e humana -- se vê submersa no universo de outras artistas que encontraram refúgio durante a ditadura. Com excertos (ficcionais, mas que poderiam ser daquela época) não só referentes ao trabalho de Ana mas também de cartas escritas por outras mulheres da mesma esfera, o filme se torna um híbrido tão magnético que, em um certo ponto, tudo ali parece ser real.



    E, de certa forma, tudo é. Murat e Rabelo andam por locais marcados pela violência militar da época, ouvem depoimentos de militantes sobreviventes, relembram algumas vítimas reais e falam sobre o peso histórico das ditaduras na América Latina nos dias atuais. Simultaneamente, as mesmas mulheres com quem Rabelo conversa leem cartas fictícias que teriam escrito a Ana, e vice-versa. Elas relembram os traços de uma mulher que não existiu da forma como o filme nos apresenta, mas que representa nitidamente tantas vidas apagadas e escondidas através dos anos.

    É neste lugar de proximidade com algo tão assustador (que ainda ecoa nas vidas que lutaram e sobreviveram) que Ana. Sem Título encontra uma forma ímpar de construção narrativa. O que poderia recair em um espaço de certo didatismo por conta da relevância histórica na verdade se transforma em um drama poético sobre encontros e entendimento -- sobre questões internas e dos outros. A personagem de Rabelo destaca o tom dramático que o filme possui e também entrega a dose de surpresa e comoção que, inevitavelmente, se encontrará com o espectador.

    É realmente tocante o modo como Murat não só atua como guia como também é participante ativa de sua própria história. No filme, as mulheres do hoje usam suas vozes e presenças para honrar as mulheres do passado. Mas sua Ana não é um fantasma impalpável: ela é uma ideia que resiste no presente e a constatação de que muitas figuras femininas existiram e fizeram a diferença sem ganhar mais alcance. Mas o que Ana. Sem Título destaca em sua essência é que, apesar de estar sempre conectada à ideia de resistência de um todo, a força pode garantir ainda mais impacto na individualidade do ser.

    A Ana de um passado injusto e imperdoável também se encontra nas palavras de esperança que Estrela D'Alva entoa nos belos momentos finais através de uma performance. Com a conexão entre duas épocas diferentes (que infelizmente possuem trágicas similaridades), constatar que ainda é possível enxergar a beleza na resistência é um tanto reconfortante. O novo filme de Lúcia Murat traz um gosto agridoce de opressão e acolhimento, mas é uma experiência que todos deveriam sentir.
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