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    Ninguém Sabe que Estou Aqui
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Ninguém Sabe que Estou Aqui

    Reconciliação com a própria voz

    por Barbara Demerov
    Com uma presença que já propaga por si só palavras que nunca são proferidas, o personagem Memo (Jorge Garcia, de Lost) seria uma verdadeira incógnita caso o espectador não tivesse o apoio visual que Ninguém Sabe que Estou Aqui entrega tão bem. Graças à trilha-sonora, aos flashbacks que surgem como se fossem sonhos e às inserções com base no realismo fantástico, o filme de estreia do diretor Gaspar Antillo mergulha no que há de mais íntimo em um protagonista - seus traumas - sem se esquecer de trazer vivacidade e, até mesmo, uma parcela de romance.

    Em uma história trágica como a de Memo, pautada pela interrupção de sua infância, seus sonhos e até mesmo seu futuro por conta da ganância do pai, Ninguém Sabe que Estou Aqui poderia se apoiar exclusivamente no que se passa na mente daquele homem. Mas não é apenas isso o que vemos em tela. Já adulto e completamente refém do passado, usando seu corpo para intimidar e bloquear as pessoas ao seu redor, Memo não é apresentado a outros personagens da mesma forma que para o espectador: somos nós quem vemos suas crises e entramos, ainda que parcialmente, em seu mundo particular.



    A escolha de Antillo e de sua equipe técnica e artística em utilizar cores quentes para transmitir os desejos de Memo é belíssima e funciona para nos instigar a compreender o fardo que o protagonista carrega no silêncio. Aliada às cores e às adições de fantasia (como na cena em que Memo vomita glitter, trazendo para fora o desejo pelo sucesso que lhe fora negado), a fotografia de Sergio Armstrong também ajuda a captar de forma mais detalhada o vazio que preenche aquela vida esquecida pelo próprio Memo: especialmente nas cenas em sua casa, com ângulos que o isolam no próprio ambiente ou o transformam numa parte fixa dele, e em cenas aéreas, quando anda completamente sozinho por belas locações chilenas.

    FILME REFLEXIVO TRAZ PROTAGONISTA QUE SE COMUNICA COM O SILÊNCIO

    O uso da trilha também é importante para entrarmos na mente do protagonista. A ótima canção Nobody Know I'm Here, que Memo gravou quando criança mas nunca ganhou o devido crédito para isso, ecoa em diversos momentos do filme para mostrar que ele ainda precisa se redimir do que houve no passado. Não só pelo o que houve com seu pai - que autorizou a música para ser utilizada por outra criança mais magra e "adequada" para a fama do que seu filho - mas também pelo o que Memo fez com a criança em si em um ato impensado.

    Da metade do filme para frente, ele passa a se abrir mais para o mundo (por mais que não seja essa a sua vontade inicial) e, com isso, o filme ganha horizontes contrastantes do que vemos no início. Porém, a atmosfera solitária de Memo persiste até mesmo em trocas de diálogos, chegando a ser angustiante observá-lo. A atuação de Jorge Garcia não só é certeira na composição do personagem no geral (dos movimentos aos olhares) como também é um exemplar poderoso do quanto um ator pode falar quando este sabe aproveitar a quietude. É muito peculiar, ao mesmo tempo que natural.

    Ninguém Sabe que Estou Aqui possui duas partes que não conversam completamente entre si devido ao protagonista ser levado de encontro com uma possível reconciliação de forma um tanto abrupta. No entanto, ela seria necessária de um jeito ou de outro. As já citadas cores vermelhas servem para dar a impressão de que Memo pode estar sonhando ou vivendo algo intenso pela primeira vez; e o próprio filme indica que a realidade é a segunda opção. Quando o protagonista finalmente usa sua voz como prova, vemos que ele não busca confirmar sua verdade para os outros: enfim, Memo entende que o simples ato de cantar em público já é uma forma de extravasar suas angústias. Ele nunca quis provar nada, mas a confirmação (que só pode vir de si mesmo) também é uma etapa para a libertação.
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