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    Cidade Pássaro
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Cidade Pássaro

    Simetria por fora, desarranjo por dentro

    por Barbara Demerov
    Ikena, irmão de Amadi, desapareceu na cidade de São Paulo, deixando para trás sua família e muitas expectativas interrompidas. Com isso, Amadi viaja da Nigéria para o Brasil a fim de buscá-lo e tentar entender o que aconteceu. Com esta premissa, o diretor Matias Mariani constrói uma crônica urbana cujo olhar sobrevoa a cidade cinzenta e atravessa corredores de prédios (quase) desocupados. As raras presenças em algumas construções do centro da cidade são unicamente ocupadas por figuras marginalizadas pela sociedade que esquivam-se do contato social, praticamente escondidos do mundo. Por isso, é muito simbólico que este filme seja protagonizado por um estrangeiro que não entende português.

    Afinal, seu olhar não conhece a realidade exposta em Cidade Pássaro. Ele é um forasteiro que tenta se encaixar à tudo aquilo que o irmão se juntou ao sair de seu país de origem, mergulhando mais e mais na vida de Ikena. É interessante acompanhar seus passos graças ao ponto de vista do personagem, à sua vontade de pertencer a algo inteiramente novo e diferente. O único ponto que faz tudo ter sentido ali para Amadi é a presença impalpável de Ikena. Por isso, sempre permanece a sensação de que as pessoas com quem o protagonista conversa, os lugares que visita e seu incômodo perante a tudo isso são resultados de uma frustração imensa em não ser o irmão - ou não ser quem gostaria de ser, alguém com coragem para encarar mudanças e novos modos de pensar.



    O conteúdo destas questões psicológicas envolvendo os dois irmãos se dá de encontro com a imponência dos prédios de São Paulo, filmados sempre com uma perfeita simetria, emanando controle e exatidão - qualidades essas que Amadi não possui na missão de se reencontrar com o irmão. Ao seguir seus passos e conhecer pessoas com quem Ikena se relacionou (um amigo que pode ter sido sua paixão e uma moça que também se envolveu com o misterioso rapaz), o protagonista permanece sempre com um olhar perdido, não só por não entender a língua na maioria das vezes mas também por não saber se está no caminho certo.

    É quando a narrativa entrega que Ikena sumiu por estar fascinado por física quântica e, especialmente, pela possibilidade ínfima de controle de toda e qualquer situação que acontece no mundo, que Cidade Pássaro mescla a narração silenciosa de Amadi com os mitos, teses e dúvidas salientados por Ikena. O roteiro realiza um verdadeiro estudo sobre ambos os irmãos - o que é louvável, visto que um deles aparece pouquíssimo em cena. Ainda que o suspense com relação ao sumiço por vezes se perca devido à construção da nova vida de Amadi em São Paulo, o filme se mantém firme com seu estilo reflexivo, abrindo espaço para respostas ainda mais intrigantes do que as perguntas que as antecedem.

    Cidade Pássaro possui como uma de suas maiores qualidades seu elenco, que é fundamental para a submersão dentro do universo particular que é a cidade de São Paulo. Cidade esta que, aqui, é observada pelo diretor com um olhar sincero, sem maquiagens para torná-la o que ela não é de fato. O espectador que conhece este lado da grande metrópole entenderá isso e, definitivamente, sentirá a potência desta história que exprime tão bem a ideia de que cada um, por si só, é um estrangeiro à sua maneira.

    Filme visto no 70º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2020.
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