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    Miss Americana
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Miss Americana

    Desconstruindo Taylor Swift

    por Barbara Demerov
    Em um dos melhores momentos de Miss AmericanaTaylor Swift conversa com o também cantor Brendon Urie, da banda Panic! At the Disco, sobre o videoclipe que ela já imagina fazer com ele – ainda que naquele momento ambos estejam gravando a música no estúdio. A cena não só é excelente pela sua montagem, que mescla as palavras de Swift descrevendo o que quer fazer no vídeo com passagens do colorido clipe finalizado de "ME!", mas também porque mostra o quão determinada e sonhadora a jovem cantora é. Ao longo do filme, vemos que Taylor nem sempre foi ela mesma diante do mundo, apesar de sempre expressar palavras sobre sua vida amorosa e pessoal de forma sincera.

    Com apenas 30 anos, ela já coleciona sete álbuns, milhões de fãs e diversas polêmicas. O documentário de Lana Wilson aborda a carreira de Swift de modo que também seja possível vislumbrar algumas passagens de sua vida pessoal, assim como suas maiores inseguranças. Há cenas em que vemos o exato momento em que Taylor tem de lidar com o público e a mídia num viés pessoal, como quando a vemos postar a primeira declaração política de sua vida profissional. Dentro daquele misto de ansiedade e animação junto de sua mãe e assessora, é muito fácil ver uma mulher que, enfim, quer ser mais do que esperam que ela seja. Uma mulher que está cansada da imposição de um mercado que pode ser intransigente e flexível ao mesmo tempo.



    Miss Americana traça um bom panorama da transformação pessoal de Taylor Swift, sempre analisando a personagem enquanto artista e estrela mundial. Por isso, é muito evidente ver o quanto a jovem mudou ao longo dos anos – desde que se apresentava com um violão e seus cachos até chegar a inúmeras reinvenções, do country ao pop. Tais reinvenções são citadas pela própria: "As mulheres precisam de reinventar a fim de manterem seus empregos", diz, próximo ao fim do documentário. É interessante como nem a própria tinha plena noção de que suas transformações gradativas atingiam mais aos outros do que a si mesma, pois o importante era acompanhar o ritmo do mercado musical. A cena de abertura do filme, em que ela descobre que não foi indicada ao Grammys, deixa bem claro este sentimento agridoce.

    Mas o que fica ainda mais claro é sua dedicação enquanto artista e a vontade em aprender coisas novas, não necessariamente em ser aceita pelo mundo. No entanto, há pontos de virada importantes aqui, e que não se relacionam apenas à música. O mais marcante é o de quando a cantora sofreu abuxo sexual de um apresentador de rádio durante uma sessão de fotos e, assim, tem de lidar com uma realidade bem diferente da qual está acostumada. Apesar de possuir provas e ter processado o homem por apenas um dólar, o caso conquistou bastante atenção da mídia em 2017 – seja a favor ou contra a cantora. Assim como essa situação, sua escolha em falar publicamente sobre a então candidata republicana ao Senado, Marsha Blackburn, em 2018, moldou novos caminhos não só enquanto civil, mas também enquanto voz de toda uma geração.



    Outras questões que complicaram sua carreira por um bom tempo, como a amarga relação que possui com Kanye West desde 2009, são abordadas no documentário de forma a entendermos suas questões para se afastar da mídia por um tempo, ou até de seus fãs. Desde o incômodo com uma legião de fãs na porta de sua própria casa até a alegria explícita pós-show, quando acredita que todos ali presentes ficaram felizes, são boas nuances para compor algumas camadas de uma pessoa que não se sente compreendida a todo o momento. Mas, ao fim da obra, sabemos que Taylor quer o que, no fundo, muitas mulheres ao redor do mundo também almejam: usar rosa – quando quiser –, cantar músicas sobre relacionamentos, falar sobre política e ser levada a sério. Tudo junto e não necessariamente nessa ordem.

    Miss Americana traz um resultado positivo enquanto trabalho de composição de personagem e mergulho pessoal, por mais que seja tecnicamente regular dentro do gênero de cinema documental. A ótima montagem balanceia os bons e maus momentos da artista de forma sensível e, especialmente, com um olhar que mantém sua distância. Ainda que seja possível conhecer mais de Taylor, sua figura permanece um tanto misteriosa, o que nos dá a impressão de que ela nunca irá querer mais exposição do que a deixe confortável. Nem mesmo em um filme sobre sua vida e carreira.
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