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    Macabro
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Macabro

    Redenção ilusória

    por Barbara Demerov
    Baseado em fatos que aconteceram nos anos 90, Macabro é um filme que, desde o princípio, se mostra determinado a expor as mazelas da sociedade - tais como racismo e violência policial - através das pessoas que vivem na cidade de Nova Friburgo. Existe a intenção de mostrar ao público as razões pelas quais os irmãos Ibraim e Henrique de Oliveira, denominados "Irmãos Necrófilos", agiram de forma tão violenta contra dez residentes do local. O filme traz indícios de abuso psicológico e físico, assim como a intolerância daqueles que os conheciam. Contudo, a mensagem que a história busca trazer é repetidamente verbalizada até chegar a um ponto em que ela não mais funciona como deveria.

    Uma vez que aqueles crimes bárbaros nunca foram completamente resolvidos (Ibraim foi morto a tiros na floresta local e Henrique está preso, mas nega autoria dos crimes), Macabro não se propõe a estudar os casos ou seus autores, mas seguir uma narrativa com viés reflexivo com base no olhar de um protagonista que não é, nem de longe, um herói. Sargento do BOPE, Teo (Renato Góes) abre o filme executando um morador de comunidade por engano, em mais uma missão falha da polícia do Rio de Janeiro. Mas, se de início a prioridade deste olhar supostamente serve para denunciar atos imorais, logo a obra vai dando espaço para defendê-lo.



    Este é o principal ponto que impossibilita uma imersão mais neutra, estritamente focada nos assassinatos que os irmãos realizam pouco a pouco. Macabro é interessante por abordar a reação dos residentes e o fanatismo religioso que impregnou o caso na época. Para os mais religiosos, os irmãos eram serventes do demônio e realizavam atos satânicos com pertences das vítimas. Sem procurar por respostas vagas ou dar mais espaço para alimentar mitos locais que tanto marcaram aquela época, o filme executa um bom trabalho dentro do gênero de suspense, aproveitando as locações e alguns personagens para entregar tensão.

    O som e a fotografia são ótimos e dão base a uma experiência que impacta em momentos-chave, tais como as cenas de crimes. Porém, contrabalanceando a técnica de Macabro, o personagem de Teo (assim como muitas de suas atitudes) não se encaixam com as boas intenções do roteiro. Ao mesmo tempo em que o texto e a direção destacam a falta de empatia e o racismo dos moradores para com a família dos irmãos Oliveira, o protagonista (que nasceu na cidade) retorna para lá após anos a fim de fugir de julgamento sobre o ato que abre o filme. Ou seja: ele é alguém que sempre fugiu e nunca encarou suas questões de frente. Portanto, ceder o protagonismo para uma figura tão problemática não parece acertada - especialmente sendo uma figura do BOPE, que na vida real foi a organização responsável por matar Ibraim.

    Se Macabro não se aprofunda nas origens ou motivações dos irmãos Oliveira, por que dar voz a quem está do outro lado da corda? Ainda mais quando o passado de Teo acaba por condená-lo ainda mais: ele só foi embora de Nova Friburgo porque engravidou uma jovem de 13 anos e, quando enfim retorna, ela acaba por ser uma vítima em potencial - além de vítima de abandono, com frases como "Eu não fui embora porque quis" sugerindo que o homem nunca teve más intenções, mesmo afetando diretamente as pessoas. Como um filme que procura criticar o racismo, Macabro não fecha suas pontas soltas graças à falta de tato e às trocas de prioridade ao longo da narrativa. No fim, o que fica é a imagem de mulheres como alvo de violência brutal e o ciclo vicioso de um homem que nunca procura se redimir.
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