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    Hálito Azul
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Hálito Azul

    Poesia em alto mar

    por Barbara Demerov
    A maior ilha de toda a área de Portugal, São Miguel, possui uma comunidade chamada de vila Ribeira Quente, que vive em uma combinação oposta: cercada pelo mar e acima de um vulcão. Mas, fora este curioso fato que é citado ao longo de Hálito Azul, a predominância do documentário é a água – e tudo o que está envolvida nessa preciosidade da natureza que é tão valorizada pelos habitantes locais.

    O filme de Rodrigo Areias é uma espécie de homenagem aos pescadores que dedicam suas vidas (por vezes literalmente) a esta profissão essencial em Ribeira Quente que mantém suas tradições com afinco, não importando o tempo que se passou desde seu início. Em modo observativo com sua câmera sempre muito firme, o diretor acompanha reuniões de pescadores que expõem problemas relacionados à alimentação destes profissionais em alto mar, assim como viagens de pesca que exploram as etapas deste ofício tão individual e que já emana recolhimento por si só.

    Mas também há espaço para o diretor inserir excertos literários para compor seu universo azul. Com trechos de "Os Pescadores", do escritor Raúl Brandão, Hálito Azul reveste sua camada observativa, explícita nas cenas em alto mar, com outra camada: a ficcional. Mas não é como se uma excluísse a outra, pois Areias opta por uni-las – mesmo que, por vezes, as duas não conversem entre si. O tom reflexivo se dá de forma um tanto exaustiva à medida que vamos conhecendo mais sobre aquela região e suas histórias, cuja amplitude já cativa sem dificuldades.



    As cenas em que o espectador acompanha as belas e coloridas homenagens feitas pela vila Ribeira Quente aos pescadores, assim como à tradição em si que sobrevive através dos anos, é um dos pontos altos do documentário – aliado, também, às passagens que abrem e fecham a narrativa, em um farol afastado e envolto pelo mar. A questão é que o filme possui uma estrutura densa que prioriza uma visão que se aproxima do mítico com relação aos pescadores. Não há nenhum ponto de virada, nenhuma guinada que apresente mais movimentação à trama, e isso prejudica um tanto seu ritmo contemplativo.

    No entanto, a adição de cenas teatrais com personagens reais da região (com todos os diálogos baseados nos contos de Brandão) de fato acrescentam um tom onírico que pode ser aproveitado pelo espectador se o filme passar a ser visto como tributo ao mundo da pesca, tão distinto de quem vive afastado do oceano. Como já citado, a passagem que fecha o documentário – um belo monólogo – emana os ares frios que cercam aquele farol, e deixa bem demarcado que o intuito do diretor é ser mais poético que elucidativo.

    Filme visto na 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2019.
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