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    Pacificado
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Pacificado

    Retrato dos marginalizados

    por Barbara Demerov
    Ao sair da prisão após 14 anos, Jaca (Bukassa Kabengele) retorna à sua comunidade no Rio de Janeiro para encontrar outra pessoa em seu posto de líder. Enquanto isso, uma garota de 13 anos chamada Tati (Cássia Nascimento) observa ao longe o show de fogos de artificío que marca o fim das Olimpíadas de 2016. Transição pode ser uma ótima palavra para definir Pacificado, uma vez que o fim dos jogos representa o fim da pacificação da polícia no entorno que está o complexo que Jaca e Tati vivem, além de também estar inserida na situação que o personagem se encontra ao ver seu lar pronto para recebê-lo, mas sem ter poder suficiente para determinar nada ali.

    O filme de Paxton Winters, que viveu no Morro dos Prazeres por anos, dá um extenso panorama de como as pessoas vivem à margem da sociedade no primeiro ato, surpreendendo pela naturalidade com que registra os detalhes daquela classe; mas, por ter personagens tão fortes como a dupla principal, acaba por se conectar mais aos dramas de cada um (e das pessoas que os rodeiam) do que a um interessante contexto político que ganha abertura com a pacificação passageira. Gradualmente, o cenário da comunidade vai se tornando mero coadjuvante perante às informações apresentadas em cada núcleo: seja com Tati e sua mãe dependente de drogas (Débora Nascimento, em ótima atuação) ou com Jaca, o pai que sua mãe sempre lhe falou e que nunca havia conhecido até então.



    Mesmo que o pano de fundo (o local em si) nunca seja posto de lado e tenha o papel de evidenciar os graves problemas e características que o tornam singular, o tom documental de Pacificado não evolui para além deste limite. A ficção sobrepõe a realidade, mas simultaneamente a ficção é feita de realidade - e este é o principal fator que faz a narrativa garantir um ritmo claro e preciso, costurando todas as subtramas a fim de gerar um coletivo de realidades que conversam diretamente entre si.

    A boa fotografia e a direção de Winters, que conta com uma quantidade razoável de câmera na mão, aliam-se à performance enigmática de Nascimento como Tati. Ela é uma guia inocente e também atenta, que insere o espectador para aquele universo inconstante - assim como também aprende a lidar com sua nova realidade ao lado do pai, encontrando outra perspectiva de vida. Com o protagonismo dividido entre os dois personagens, é interessante notar como um vai absorvendo um pouco do outro até encontrarem plena harmonia.

    Pacificado ganha contornos sensíveis ao explorar a vida dos personagens apresentados, estejam eles do lado do crime ou não; afinal, estes personagens representam uma infinidade de pessoas reais. Porém, o perigoso território explorado fica aquém de seu completo potencial pelo fato do diretor examinar fragmentos daquela atmosfera, e não a conjuntura. Mas, simultaneamente, é desta forma que o filme ganha pontos. Por ser humano, registrar um olhar que sente por aquelas pessoas e por dar um vislumbre de esperança.

    Filme visto durante a 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2019.
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