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    The Cave
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    The Cave

    Tempos de guerra

    por Francisco Russo
    Em 2017, o diretor Feras Fayyad desbravou sua Síria natal em plena guerra para apresentar o trabalho altruísta dos Capacetes Brancos, no excepcional documentário Últimos Homens em Aleppo. Dois anos depois, ele retorna ao mesmo ambiente para apresentar mais uma faceta da batalha diária que lá acontece, desta vez com um olhar feminino.

    A sequência de abertura já dá bem o tom de gravidade do cotidiano sírio: uma câmera estática enfoca boa parte da cidade de Ghouta, em aparente paz. Subitamente mísseis atingem variadas locações, provocando sonoras explosões que destroem tudo ao redor. Para sobreviver ao contínuo ataque russo, boa parte dos 400 mil moradores decidiu se refugiar no subterrâneo, em uma complexa rede de túneis construída embaixo da cidade. É lá que também funciona The Cave, o hospital local, que faz o que pode para atender os feridos.


    Através do olhar da doutora Amani, pediatra e diretora-geral do hospital, este novo documentário de Fayyad acompanha não só os esforços diários mas, também, as aflições pessoais de seus funcionários. Da agonia decorrente da restrição de remédios à ternura com a qual trata seus pacientes, especialmente crianças, Amani transmite um olhar humano que se manifesta também nas preocupações cotidianas, seja com a realidade absurda à sua volta ou mesmo no âmbito pessoal, em miudezas da vida normal (e pacífica). Tal postura é refletida nos demais funcionários, que buscam meios para manter a sanidade em meio à tensão constante, em especial quando surge o som dos aviões de guerra. É o alerta de que muito em breve haverá trabalho, antevendo as explosões que estão por vir sem saber se o próprio local em que estão será, também, atingido.

    Tamanha tensão é onipresente no longa-metragem, por mais que haja momentos de respiro como a preparação do alimento de cada dia ou as músicas ouvidas no celular. A constante entrada de feridos é o lugar comum, por vezes trazidos da forma que der, como em um carrinho de mão. O improviso é a regra em momentos de tragédia como este, onde chega a faltar luz em meio a uma operação, desligando todos os aparelhos utilizados de uma hora para outra. Ao médico, cabe lidar com a sensação de impotência em meio à impossibilidade em fazer aquilo pelo qual acredita e tanto estudou. Neste cenário, fazer o possível já é muito.

    Soma-se a isso a necessidade em lidar com o machismo intrínseco na sociedade local, que ignora a competência na afirmação categórica de que mulher não pode comandar um hospital, em qualquer situação. A estupidez humana mais uma vez impressiona, não apenas pelo absurdo do dito mas, também, pelo rápido olhar em volta que escancara o caos generalizado. A mesma pessoa que "devia estar em casa cuidando da família" é aquela que se arrisca e tanto se dedica a salvar vidas da forma que der, enfrentando riscos e condições inapropriadas. Além do preconceito, neste cenário tal afirmação é de uma insensatez impressionante com a qual, também, Amani e as mulheres de sua equipe precisam lidar no cotidiano.

    Inevitavelmente duro, The Cave é um aprofundado perfil humano sobre uma das muitas facetas existentes na guerra da Síria. Se é difícil acompanhar o entra e sai de tantos feridos, de todo tipo, é particularmente doloroso notar o quanto a guerra atinge as crianças, ensanguentadas e assustadas, algumas com a consciência da morte talvez iminente e outras, em sua ingenuidade, apenas olhando ao redor em busca de alguém que lhes dê abrigo. Bem-vindo ao mundo real.

    Filme visto no Festival de Toronto, em setembro de 2019.
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