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    A Babá - A Rainha da Morte
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    A Babá - A Rainha da Morte

    Pós-terror para millennials

    por Ygor Palopoli

    Transgredir um gênero nunca é fácil, esteja ele presente nos cinemas ou na Netflix. Primeiro, você precisa se utilizar das narrativas clássicas para criar uma história que se assemelhe a elas, mas que evidenciem seus clichês e consiga subvertê-los. Depois, é necessário que sua obra seja atrativa o suficiente para que se sustente não apenas como uma óbvia transgressão, mas como um filme independente disso. E por mais que estes sejam apenas os primeiros passos, A Babá - A Rainha da Morte os cumpre com maestria.

    É claro que não existe um guia definitivo de como quebrar as barreiras de qualquer gênero cinematográfico, especialmente o terror, que sempre foi tão injustiçado por parte do público e, especialmente, pela crítica. No entanto, quando a Netflix decidiu lançar A Babá, no final de 2016, a reação geral foi de um resultado surpreendentemente interessante.

    Acostumados a ver a Netflix produzindo filmes de terror cada vez piores e mais repetitivos, assistir a A Babá era como se víssemos a própria plataforma zombar de seu conteúdo: um personagem sem camisa o tempo todo, um adolescente ridiculamente azarado que luta sozinho, uma mulher linda que se revela vilã, o negro que só aparece como alívio cômico, a líder de torcida... estava tudo lá, funcionando em uma química excepcional, justamente por ser despretensiosa. 

    Agora, na continuação, as coisas não foram nem um pouco diferentes. No segundo filme, Cole (Judah Lewis) está dois anos mais velho, vivendo a puberdade à flor da pele, enquanto precisa frequentar sessões psiquiátricas e sofre bullying na escola por ninguém acreditar no que ele passou com o culto maléfico. É a partir daí que somos direcionados a viver a mesma história novamente, mas com mudanças pertinentes em relação à própria idade de Cole e também a um novo núcleo de personagens.



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    O maior problema de brincar em cima dos clichês de um gênero é que desavisados podem achar que o filme em si é um grande clichê ambulante, uma vez que praticamente todos os acontecimentos da trama são facilmente premeditáveis. O erro de se ver desta perspectiva, no entanto, é não perceber que A Babá 2 se aproveita do esperado para trazer o inesperado.

    Um momento que deixa isso claro, por exemplo, é quando Cole conta para uma personagem que um culto diabólico está querendo seu sangue e a única reação da ouvinte é ficar aliviada por não serem zumbis. Afinal de contas, em um universo que Millennials estão tão acostumados a serem massacrados com filmes e séries de mortos-vivos, uma seita diabólica já nem assusta mais.

    E já que estamos falando dos Millennials e da Geração Z, é interessante ressaltar o quanto o filme conversa com estas pessoas. Digo isso porque tudo no filme é tão rápido e recheado de malabarismos da direção de McG (diretor do primeiro filme, e com fama de ser extravagante em seus trabalhos) que nota-se a necessidade de fazer um ritmo acelerado e jovial o suficiente para este público específico. Cenas em câmera lenta, efeitos de videogame, metalinguagem, muito lettering, tudo isso acaba deixando claro com quem o filme quer traçar o seu diálogo.



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    Aliás, uma época onde muito se fala a respeito do controverso termo "pós-terror" (clique aqui para ler uma análise sobre o tema e entendê-lo melhor!), pode-se dizer perfeitamente que A Babá 2 é o pós-terror para a nova geração.

    No sentido literal da palavra, o filme mostra exatamente o que imaginamos ao ouvir sobre "pós-terror" pela primeira vez: o que fica quando o horror se vai? Como ficou a família de Regan depois de seu exorcismo? Como Rosemary conviveu com seu bebê? Para onde foi Jason, afinal de contas? Aqui, tentamos entrar em um cenário real no qual um personagem mata 5 pessoas, joga um carro dentro de uma casa, esmaga sua babá, e depois conta sua história mas é completamente desacreditado, fazendo surgir daí boas piadas e pontos importantes na trama. 

    Os únicos defeitos, porém, ficam na dificuldade em conseguir sair da fórmula do primeiro filme. Enquanto o primeiro A Babá contava com seu ar de ineditismo no estilo das piadas, na narrativa rápida e nas mortes brutais, A Rainha da Morte escolheu elevar a potência de tudo que havia no primeiro em vez de tentar experimentar novos caminhos: uma estratégia certamente mais segura, porém não tão eficiente para que ele superasse seu antecessor.

    No fim, A Babá 2 é um exemplo de como estúdios e plataformas como a Netflix tirariam muito mais proveito de suas obras se tentassem ser menos pretensiosos em relação ao que produzem e como produzem. Com um consumo em massa tão acelerado e constante, sentimos falta de um filme que não tente ser maior do que realmente é. 

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