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    Vozes da Floresta
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Vozes da Floresta

    Mulheres em luta

    por Bruno Carmelo

    O documentário de Betse de Paula se abre com o potente discurso de uma advogada indígena a representantes políticos em Brasília, defendendo o direito dos índios à terra enquanto denuncia os ataques sofridos por fazendeiros. Esta cena representa o mecanismo proposto nos noventa minutos restantes: a diretora privilegia o ponto de vista das mulheres que lutam em defesa das águas, da terra e das florestas na região amazônica. O filme se move não apenas pelas denúncias, mas pela necessidade de fala, de conferir rosto e protagonismo a figuras invisibilizadas pela mídia majoritária. Por esta razão, a cineasta elege um grupo de mulheres particularmente bem articuladas, como Sônia Guajajara, Joênia Wapichana e Dona Dijê.

     

    A intenção é mostrar que estas personagens não apenas participam da política, mas também lideram movimentos sociais e abrem portas para campos de atuação antes reservados aos homens. O filme faz questão de buscar em suas características particulares o ideal de uma luta comum a todos os oprimidos, sejam as mulheres, os indígenas, os pobres, os negros, os povos de regiões isoladas, os artesãos etc. É interessante a organicidade com que estes elementos se cruzam, sem que um se sobreponha ao outro ou provoque disputas internas. A cineasta jamais define estas mulheres pela ausência de marido e filhos, ou pela priorização da luta em relação à família, como fazem tantos projetos interessados em imaginar como uma mulher consegue conciliar luta social “e ainda ser feminina”.


     


    O documentário evita embelezá-las, torná-las mais fortes para a câmera: a naturalidade de suas roupas e seus corpos, filmados no local onde vivem (ao invés dos típicos depoimentos posados) reforça a naturalidade e o vínculo com o espaço ao redor. A própria geografia foge à idealização típica do documentário panfletário, que busca convencer o espectador da importância da natureza devido a seu capital estético. A simplicidade das luzes e enquadramentos de Vozes da Floresta pode ser interpretada tanto como um sintoma da produção modesta quanto como uma escolha orgânica de não querer se sobrepor àquele contexto, retratando-o com o mínimo de filtros e acessórios. A semelhança com a linguagem da reportagem, devido à sucessão de falas e paisagens, é atenuada pela recusa do espetáculo comum aos produtos televisivos.

     

    Com exceção de uma ou outra cena pontual, a fotografia se mostra competente e discreta, enquanto o trabalho de som valoriza as vozes sem perder os importantes ruídos da natureza. Ainda mais importante é a atenção conferida à rotina dessas mulheres, quando a imagem demonstra por si própria que o discurso das protagonistas não permanece no plano das intenções, refletindo-se em ações concretas. Cenas sobre o preparo da farinha de mandioca, a quebra dos cocos ou o estudo de mapas sobre áreas de preservação permitem que Sônia, Joênia e outras não se tornem apenas porta-vozes de um movimento, e sim exemplos de práticas viáveis. A utilização das vozes em off, sobrepostas a imagens da natureza, também constitui um recurso de linguagem bastante simples, porém funcional ao eliminar a personificação – esta não é apenas a opinião daquela mulher específica – para tornar a ideia mais ampla, universal, uma espécie de coro entoado pela diretora e pelo filme como um todo.


     


    Vozes da Floresta sofre, no entanto, com a duração excessiva: com noventa e cinco minutos, começa a esgotar a variedade de seus discursos e imagens rumo ao final. A montagem tampouco encontra uma maneira de costurar a presença de todas as mulheres entrevistadas, contentando-se em apresentá-las uma após a outra. Em paralelo, a câmera não se priva da tentação de efetuar um zoom no rosto de uma entrevistada quando narra a morte do filho, ou de permitir que uma mulher efetue uma propaganda institucional de seu estabelecimento turístico. Por fim, a falta de ousadia estética pode ser interpretada tanto como uma humildade da diretora, preferindo deixar a atenção às mulheres entrevistadas, quanto como uma falta de ambição, prejudicial ao resultado como um todo. Ao menos, Betse de Paula ostenta um ponto de vista claro na defesa tanto das atividades dessas personagens quanto numa forma de cinema que privilegia o indivíduo à forma de retratá-lo.

     

    Filme visto no 29º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema, em setembro de 2019.

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