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    Ressaca
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Ressaca

    Ruídos na arte

    por Bruno Carmelo

    “O Rio de Janeiro está falido. O Teatro Municipal, em agonia”. A frase estampada no cartaz resume os curtos letreiros no início do documentário, quando se explica que, após um período de otimismo, um golpe de Estado tirou uma presidenta do poder para colocar novos representantes em nível municipal, estadual e federal, que cortaram verbas até paralisar os maiores patrimônios artísticos do país, como o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Rapidamente, os diretores Patrizia LandiVincent Rimbaux passam a elencar os meses em que bailarinos, músicos e demais funcionários não recebem salário, devido à indiferença dos governantes. De acordo com um funcionário, os representantes políticos inclusive sugeriram fechar as portas do Teatro de vez, para reduzir os custos.

     

    Ressaca (ou “Vertigem da Queda”, no original) obtém os seus melhores momentos quando estabelece uma relação direta entre o privado e o público, a esfera individual e a coletiva, ou ainda entre as famílias e a nação. A cena em que o primeiro bailarino do Teatro Municipal, sem receber pagamento há meses, assiste nos noticiários aos escândalos de malas de dinheiro e propina paga pela JBS a pessoas próximas do então presidente Michel Temer, a discrepância se torna clara: enquanto os cidadãos agonizam, existe dinheiro de sobra, porém concentrados de maneira ilegal nas mãos da elite. Sem um diálogo sequer, cenas como esta sintetizam as contradições de um discurso econômico que declara a incapacidade de honrar dívidas para se isentar da responsabilidade de fazê-lo.


     


    O desprezo por alguns dos artistas mais qualificados do país produz uma revolta notável nos discursos e no filme de modo geral. Felizmente, muitos destes momentos se passam no silêncio, como na bela cena em que João, homem idoso que trabalha na recepção e bilheteria, admira o espaço suntuoso do Teatro enquanto se indaga sobre uma possível vida longe daquele lugar. A câmera visita a casa destes trabalhadores e os bastidores do teatro para sugerir que a falta de pagamento não gera apenas um atraso em pagamentos, mas um desgaste emocional profundo, prejudicando laços familiares e relacionamentos amorosos. O salário não se torna apenas um pré-requisito ao consumo: ele serve como reconhecimento, retorno pelo esforço, e estabilidade para a continuidade do ofício. O documentário sustenta esta ideia de modo claro, sem precisar recorrer à denúncia sanguínea: o tom é acima de tudo melancólico, desesperançoso.

     

    É no plano da construção estética que o filme apresenta suas principais limitações, sobretudo nos trabalhos de som e fotografia. A captação e edição de som tornam diversos diálogos incompreensíveis: nos momentos de reunião entre os músicos, nas assembleias ou mesmo dentro um supermercado, a proliferação de ruídos esconde as vozes. Pode-se sugerir que o caos sonoro seja um fim em si mesmo, uma representação da dificuldade de comunicação em tempos de crise. No entanto, as falas parecem fundamentais nestas cenas incapazes de distinguir as vozes dos barulhos muito menos importantes, como toques de uma máquina registradora ou veículos passando pelas ruas. Sem estabelecer uma hierarquia entre os diálogos e os barulhos locais, o som simplesmente capta com mesma intensidade todos os estímulos que passam pela frente. A falta de direcionamento do som prejudica demais o aspecto estético e mesmo comunicativo do projeto.

     

    Talvez a escolha mais surpreendente em relação ao som se encontre na sequência em que, para chamar atenção à crise do Teatro Municipal, diversos artistas se apresentam em frente ao edifício, no espaço público. Neste momento, o filme que lamenta a falta de atenção à arte e a impossibilidade de acesso às apresentações retira o som dos tenores cantando e dos violinos tocando para unir todos os fragmentos com uma mesma música lacrimosa. Ironicamente, os artistas privados de exibirem sua arte foram mais uma vez impedidos de fazê-lo. Em contrapartida, quando uma bailarina sofre uma queda no palco durante uma apresentação, a montagem efetua um zoom, repete a cena e acrescenta uma trilha sonora de suspense para reforçar a tensão e interpretá-la como sintoma da estafa emocional. Seria muito bom ter oportunidade de presenciar o belo trabalho que efetuam (e efetuaram no passado) além da “vertigem da queda” sugerida pelo título.

     

    A questão da proximidade da câmera e do olhar da direção produz outra sensação de incômodo. Em documentários observacionais como Ressaca, nos quais se suprime as entrevistas concedidas diretamente à câmera e as narrações explicativas, é comum que a câmera se posicione de modo distante quando adentra a intimidade dos personagens, como forma de respeito e pudor. Ora, é nos momentos privados que a câmera mais se aproxima das pessoas, a exemplo do close-up na lágrima da bailarina triste, o plano próximo de um cadáver durante o velório (para o evidente desconforto das pessoas ao redor) e o instante em que a câmera se mete entre as pernas de pai e filho jogando futebol, como se fosse um terceiro jogador da partida.


     


    A intromissão não somente beira o voyeurismo como produz uma impressão de artificialidade, impedindo que as pessoas ajam com naturalidade. A cena em que funcionários explicam aos clientes que um espetáculo foi cancelado transparece o embaraço das pessoas filmadas, com medo de olhar para a câmera. Neste momento, o procedimento se ficcionaliza, como se os funcionários estivessem fazendo uma ação para o filme, e não apesar dele. Curiosamente, nos momentos públicos de apresentação, a imagem permanece distante e fria. No terço inicial, dedicado à trajetória da bailarina Márcia Jaqueline, a câmera se posiciona ora na plateia, ora na coxia, filmando em planos de conjunto um tanto impessoais o trabalho dos corpos. Mesmo o uso de lentes poderia ser questionado, por se trabalhar com as objetivas menos expressivas para a apresentação de um grupo em cena. Isso sem falar no preto e branco digital e no formato scope que pouco contribuem à experiência estética e discursiva como um todo – vide as estranhas imagens na televisão, transformadas pelo preto e branco, quando o neto de João assiste ao noticiário.

     

    Em conclusão, os espectadores do Cine Ceará parecem ter assistido a uma cópia finalizada às pressas, na qual as legendas misturam o português e o francês (“Um film de Vincent Rimbaux”, além dos títulos de capítulos não traduzidos), sintoma de um frágil trabalho de acabamento. O discurso político é muito rico, passando dos anos Lula a Temer e Jair Bolsonaro de modo orgânico, incluindo tanto a morte de Marielle quanto a valorização da arte na Europa como contrapontos aos discursos oficiais brasileiros. No entanto, especialmente por se tratar de um documentário de vocação sociológica, o aspecto fundamental do ponto de vista necessitaria maior reflexão e cuidado na execução.

     

    PS: É curioso que a obra se inicie com os letreiros “Um filme de Vincent Rimbaux, dirigido por Vincent Rimbaux e Patrizia Landi”. Como se divide a autoria da direção, neste caso? Por que o filme seria apenas de Vincent, porém dirigido juntamente com Patrizia? Como se pensa a questão da criação e da responsabilidade em relação à imagem? Este seria outro aspecto digno de questionamento, em particular dentro de um documentário sobre a autonomia e valorização do trabalho artístico.

     

    Filme visto no 29º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema, em setembro de 2019.

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