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    O Pássaro Pintado
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    O Pássaro Pintado

    Um retrato da barbárie humana

    por Sarah Lyra
    O Pássaro Pintado é um filme que, de imediato, impressiona por sua exuberância imagética. É um deleite à parte observar os cuidados do diretor de fotografia Vladimír Smutný para compor os quadros de forma única e marcante. Cada cena é pensada em detalhes mínimos, do ângulo da câmera, passando pelo belíssimo arranjo de luzes e chegando até à textura dos objetos e cenários, características que surgem não apenas para contextualizar acerca do visual e da época em que o longa se passa, mas principalmente para impulsionar as relações apresentadas durante a narrativa. Aqui, as nuances de cinza, passando também pelo preto e branco, contam uma história por si só. Talvez por conta disso, o roteiro não invista tanto nos diálogos, com quase todos os segmentos da trama sendo contados principalmente pelas ações dos personagens, combinadas às ricas ambientações e figurinos propostos pelo design de produção.

    No que diz respeito aos acontecimentos em si, é difícil manter os olhos na tela enquanto presenciamos algumas das barbaridades enfrentadas pelo protagonista, um garoto judeu que é deixado com familiares na zona rural para ser mantido em segurança durante a Segunda Guerra Mundial. O que não se imaginava em um primeiro momento, no entanto, é que o destino do garoto é tão ou mais violento do que aquele temido pelas pessoas que tentavam protegê-lo. Por seu aspecto visceral, o primeiro impulso, em determinados pontos, é virar o rosto para o lado e evitar contato visual direto, tamanha é a crueldade observada naquele contexto. Por outro lado, há também um fascínio pelo realismo das imagens, somado à sensação de que é preciso ir até o fim para superar a dor gerada pela experiência. Ainda assim, o sentimento ao final é de pura angústia, de incapacidade de decifrar e compreender representações que exigem mais do emocional do que puramente do racional.



    Por mais impecavelmente produzidos que sejam, as seções apresentadas frequentemente despertam sentimentos conflitantes. Por um lado, há de se perguntar: até que ponto essa violência sofrida pela criança é gratuita? É realmente “necessário” ir tão a fundo no absurdo para evidenciar os horrores da guerra? — e, aqui, “horrores da guerra” ganha outro significado, já que o filme é muito mais sobre o desespero humano diante da barbárie social do que sobre confrontos bélicos protagonizados por militares. E mais: existe uma fetichização nesta abordagem? O que o choque das imagens faz por nós enquanto espectadores? Somos levados a refletir sobre os subtextos de cada situação ou a repulsa é paralisante? A resposta é inteiramente subjetiva e individual, não há um caminho certo, mas é válido destacar como o diretor Václav Marhoul demonstra controle sobre suas intenções. A impressão, ao final, é de que ele realizou exatamente o que pretendia, ainda que não entenda exatamente os impactos dessa experiência no espectador.

    Chama a atenção também a habilidade de se empregar elementos simbólicos, principalmente com os animais, que são sempre colocados em tela de forma a comunicar algo além das percepções iniciais, do pássaro no título aos corvos da mitologia celta, passando pelo momento surreal envolvendo uma cabra e a recém-descoberta sexualidade de um menino. Marhoul evita o convencional e entrega uma obra questionadora, incômoda e de difícil digestão. Uma espécie de espelho da humanidade, que, ao refletir a luz, gera imagens nem sempre compatíveis com nossos vislumbres próprios.

    Filme visto durante a 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2019.
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