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    Os Aventureiros
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Os Aventureiros

    O proletariado contra-ataca

    por Bruno Carmelo

    Esta aventura paraguaia se abre com um ritmo e uma qualidade de produção impressionantes. Em poucos minutos, narra-se a lenda de um tesouro histórico datado da Guerra do Paraguai e as buscas de diversas pessoas pelo suposto dinheiro enterrado, enquanto presenciamos uma dessas empreitadas, resultando num ato de traição e num assassinato. Tudo isso é embalado em trilha sonora de impacto, montagem veloz com os enquadramentos mais improváveis (o plano da corda, a subjetiva do poço) e clima de suspense misturado com humor. Os diretores Juan Carlos ManegliaTana Schembori introduzem seu tema e seu estilo com uma velocidade bastante eficaz.

     

    De fato, Os Aventureiros se torna um belo exemplar de cinema popular latino-americano, com vocação a agradar a um público amplo ao mesmo tempo em que demonstra pleno controle das ferramentas dos gêneros em questão (o filme de roubo, a caça ao tesouro, o suspense policial, a farsa, a mecânica do ladrão-que-rouba-ladrão, a paródia, a fábula etc.). Os protagonistas são malandros sem qualquer perspectiva de ascensão social, e negligenciados pelo sistema: os entregadores de jornais Mani (Tomás Arredondo) e Fito (Christian Pereira), as empregadas domésticas de um embaixador, Ilu (Cecilia Torres) e Lore (Leticia Panambi Sosa), o trabalhador de uma pequena loja de consertos, Don Elio (Mario Toñanez), além de vigias noturnos, pequenos ladrões etc.


     


    O movimento mais interessante do projeto é fazer com que todos concorram uns com os outros pelo tesouro, numa sequência vertiginosa de reviravoltas, até que percebam a necessidade de agir juntos para conquistarem o prêmio. Estas figuras negligenciadas precisam unir forças contra os patrões (simbolizados por um casarão e por um broche valioso, cujo roubo é imediatamente atribuído aos funcionários) para sabotarem o sistema. De certo modo, a longa busca motivada por um mapa de múltiplas interpretações serve de alegoria bem-humorada à revolução social, liderada pela trupe atrapalhada.

     

    Não é difícil se identificar com estes anti-heróis, cada um descrito em seus problemas individuais, seja de ordem egoísta – Fito deseja pagar as prestações da moto - ou altruísta – Manu precisa salvar a sua casa e os imóveis vizinhos, ameaçados por enchentes. Além disso, o sucesso da empreitada é prometido pelo fato de que ninguém acreditaria que eles fossem capazes disso – em outras palavras, pela arrogância dos ricos. Por esta razão, os planos concebidos e modificados a todo instante ocorrem de modo transparente, diante das câmeras de segurança, sob o nariz dos chefes. A posição de marginalidade é utilizada a favor deles, e a solução fornecida pela trama, sugerindo que o tesouro simbolicamente sempre pertenceu ao povo, é bastante astuta.

     

    Em paralelo, Os Aventureiros faz questão de lidar com traumas tipicamente paraguaios, citando desde o genocídio durante a guerra até a perda de território séculos mais cedo, devido a Tratado de Tordesilhas. A ausência de saída para o mar é citada mais de uma vez, fazendo com que a água se torne um símbolo potente na trama, desde as citadas inundações até a cena final, que habilmente mistura a crença popular com a ideia da “saída para o mar”. Em outras palavras, esta é uma comédia popular com consciência de classe e senso de reparação histórica. Através de seus maltrapilhos, sugere a importância do povo em lutar pela restituição daquilo que lhe é direito.


     


    É claro que, na ânsia de atingir um público amplo, o roteiro faz uma série de concessões ao realismo, incluindo quiproquós que vão desde o mapa perdido, roubado e voando pelos ares até as conversas secretas organizadas em locais de fácil acesso, onde todos poderiam ouvir. A ingenuidade se torna peça central do jogo em que Maneglia e Schembori pedem licença ao espectador para manipular um pouco o realismo em prol de um maior número de manobras de roteiro. Talvez algumas saídas funcionem melhor do que outras, no entanto o saldo é amplamente positivo em sua capacidade de surpreender e se reinventar – vide a perseguição de motos na pista fechada e a apresentação de dança improvisada envolvendo três travestis.

     

    Aliás, as questões de identidade de gênero, de deficiências (o garçom com Síndrome de Down) e do racismo são organicamente inseridas na trama, sem falar na importância da língua guarani. Atinge-se assim uma das raras produções capaz de ser consumidas e apreciadas por públicos distintos, e motivos distintos: quem quiser apenas saborear os prazeres cômicos das reviravoltas, encontrará farto material à disposição; quem estiver disposto a efetuar uma leitura social e histórica, encontrará uma interessante alegoria da luta de classes e da representatividade das minorias paraguaias. É cada vez mais raro efetuar a ponte entre o grande projeto comercial e filme de vocação crítica, razão pela qual a presença de Os Buscadores, dentro de uma cinematografia de poucos títulos anuais, torna-se uma proeza ainda maior.

     

    Filme visto no 14º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, em julho de 2019.

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