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    Ensaio sobre o Fracasso
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Ensaio sobre o Fracasso

    A balada do homem-cinema

    por Bruno Carmelo

    Neste novo filme híbrido entre a ficção e o documentário, entre a linearidade e a experimentação, o diretor Cristiano Burlan volta a incorporar figuras do cinema brasileiro para refletirem sobre o próprio cinema. Não basta ter atores veteranos como Helena Ignez e Mário Bortolotto: Ensaio sobre o Fracasso convida André Gatti e Jean-Claude Bernardet, pesquisadores do cinema convertidos às artes dramáticas, para interpretarem versões de si mesmos, atribuindo o peso simbólico de suas personas aos personagens. Assim como em Antes do Fim (2017) e Fome (2015), existe menos um trabalho de composição do que uma disposição dessas figuras em perambularem pelas ruas de São Paulo, representando por si mesmas o cinema em suas diferentes vertentes e gerações.

     

    Deste modo, ora André Gatti interpreta um personagem fictício (o projecionista de um cinema pornô no centro da cidade), ora compõe uma versão muito próxima de si mesmo, conversando com Bernardet sobre os filmes marcantes de suas vidas. O cineasta extrai uma poesia simples e eficaz destes momentos, seja apresentando lentamente os fotogramas de uma cena de felação, seja projetando as imagens de filmes sobre o rosto do protagonista. As noções psicanalíticas de projeção e de identificação são belamente ilustradas pelo uso do ator enquanto tela, enquanto se solicita ao espectador que complete por si próprio o movimento daqueles fotogramas pornográficos. O cinema é visto enquanto fruto do imaginário, enquanto objeto fantasmático e pulsional.


     


    Isso não significa que o projeto ostente um intelectualismo intimidante, muito pelo contrário: existe espaço considerável para o humor autocondescendente e para as brincadeiras com a própria linguagem do cinema, a exemplo das cenas em que o som direto é substituído pela dublagem de clássicos do cinema. O ruído gerado pelas falas articuladas em excesso, e por sua inadequação à imagem de referência produzem o distanciamento necessário para que aquela contextualização não se leve a sério demais. Ao mesmo tempo, o diálogo com cinema marginal transita entre o humor e a homenagem, com referências a produtores picaretas, preparadores de elenco que constituem “a desgraça do cinema brasileiro” e os filmes malditos, feitos sem preparação nem equipe, sobre pessoas sambando no centro de São Paulo.

     

    Burlan propõe um filme caseiro sobre filmes caseiros, uma obra cuja marginalidade evoca tanto o cinema nacional de décadas atrás quanto a posição desprivilegiada da nossa produção na sociedade contemporânea. Não por acaso, o diretor termina a obra com a imagem literal do artista em meio a sacos de lixo. Como de costume, a utilização dos espaços por Burlan é primorosa na representação pela ausência: o ato de filmar as grades onde antes havia um cinema, de recuperar stills de salas de rua desaparecidas, ou de perambular por ruas vazias evoca a sensação de abandono condizente com os personagens e com o cinema como um todo. Além disso, desde Antes do Fim o cineasta comprova o talento excepcional para as imagens através de janelas, com os quadros-dentro-do-quadro dialogando entre si.


     


    Fala-se muito atualmente sobre a nostalgia enquanto motor de inspiração e cinefilia, no entanto Ensaio sobre o Fracasso nunca deixa que as citações a GodardOzu recaiam no saudosismo daqueles “bons tempos que não voltam mais”: ao invés de apenas celebrar tempos passados, tanto o protagonista quanto Burlan preferem arregaçar as mangas e fazer cinema como se fazia antes, enxergando nos exemplos antigos uma forma de incentivo. Em outras palavras, a nostalgia não é paralisante ou conformista, pelo contrário, ela remete a formas alternativas de produção. O título irônico reflete sobre a importância das tentativas e das experimentações, o que remete à carreira prolífica de Burlan e ao cinema de baixo orçamento como um todo.

     

    Boas ou ruins, estas obras caseiras, feita entre amigos (e para amigos?) ousaram se expor, ousam existir apesar das dificuldades, algo que se traduz em encorajamento durante tempos austeros para o audiovisual. A referência à pornografia contribui para comentar o cinema brasileiro em geral, criticado pela moralidade e pela qualidade, ainda que seja o mais apropriado para dialogar com os nossos desejos e a nossa realidade. Ao final, com seu pequeno “filme de samba”, o cineasta amador interpretado por André Gatti se transforma no afetuoso anti-herói dos nossos tempos: o amante das artes a qualquer preço, um Dom Quixote do cinema contemporâneo, aquele cuja postura política se encontra no ato de continuar a filmar, apesar de tudo e de todos.

     

    Filme visto no 14º Festival Latino-Americano de Cinema de São Paulo, em julho de 2019.
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