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    Corpus Christi
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Corpus Christi

    Entre o bem e o mal

    por Barbara Demerov
    O protagonista de Corpus Christi é mais do que uma figura intrigante: por baixo das vestes de um padre, quem poderia imaginar que Daniel (Bartosz Bielenia), ainda na casa de seus 20 anos, possui diversas tatuagens e um passado que tenta esconder através de sua fé? É um tanto complexo analisar o longa sob a ótica do jovem, uma vez que ele transita de forma tão dominante entre as linhas da bondade e da crueldade.

    Mas é justamente neste olhar ferido e impotente, ao mesmo tempo que sempre preparado para retrucar, que o filme polonês prioriza em sua linguagem. O foco da história não é o de trabalhar uma prova de fé de Daniel, mas sim refletir dentro deste estudo confituoso que está sempre pendendo ora para o lado do bem, ora para o lado do mal.



    Daniel usa a religião a seu favor pessoal, mas também se mostra um fiel dedicado quando se torna o "padre" da paróquia de uma pequena comunidade rural. Enquanto conhece melhor o local que transformou em lar após sair de um reformatório, o jovem vai aos poucos compreendendo que aquela mesma comunidade que busca conselhos sagrados e permanece na fila da missa aos domingos possui cicatrizes incuráveis, assim como preconceitos que vão contra o próprio catolicismo.

    E uma destas cicatrizes é algo que o próprio Daniel carrega consigo: a de um passado que nunca poderá ser modificado. A grande questão de Corpus Christi, portanto, encontra seu maior mérito na prevalência da hipocrisia - a mesma que o protagonista tem de lidar internamente, pois sabe que ele nunca foi nem será um padre - e da dualidade que reside em todos os personagens abordados na história.

    Ao mesmo tempo em que busca a redenção de Deus, seu maior sonho divino não pode ser realizado por conta de um passado manchado por sangue. Tal dualidade é algo que o diretor Jan Komasa faz questão de acentuar nos momentos mais emblemáticos do longa, especialmente nas cenas externas e bem iluminadas e naturais. A fria e solitária comunidade polonesa, inclusive, acaba por ser o local ideal para que Daniel aprenda mais lições de vida e exerça sua devoção à própria maneira. A frieza dos ambientes expõe uma sensação de vazio e distanciamento do protagonista para com os moradores e vice-versa.

    Corpus Christi acentua a linha tênue entre até onde agimos com base da fé ou da hipocrisia (utilizando a religião como escudo). Ao mesmo tempo, o filme demarca o posicionamento duplo de Daniel perante a si mesmo e a quem está à sua volta, exercendo o estudo de um personagem que, antes de mais nada, encontra-se perdido. No sentido mais curioso da palavra "salvação", ele é poupado em uma cena final que remete imediatamente ao início de sua jornada. Daniel entende que é luz e sombra, e que nem mesmo a certeza pode ser absoluta.
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