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    Desafio de um Campeão
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Desafio de um Campeão

    Mudança de hábitos

    por Barbara Demerov
    Quando percebemos que certa história possui uma premissa um tanto quanto básica e, muito provavelmente, será recheada de clichês, quais elementos se fazem necessários para que mergulhemos dentro dos conflitos das personagens sem nos importarmos tanto com isso? O primeiro certamente é a compreensão emocional dos sentimentos projetados em tela, seguido pela construção de toda a conjuntura pela qual o filme se apoia. Desafio de um Campeão poderia perder muitos pontos se considerasse sua história mais complicada do que é de fato - e é justamente na simplicidade que opta em seguir, seja estética ou narrativa, que o filme funciona tão bem como um todo.

    Da hábil direção de Leonardo D'Agostini, que entrega uma atmosfera consistente do início ao fim com os contrastes da vida do jogador de futebol Christian Ferro (Andrea Carpenzano), até chegar nas atuações da dupla principal, formada por Carpenzano e o professor Valerio Fioretti (ótima atuação de Stefano Accorsi), o filme tem o propósito de falar de modo singelo e leve que, às vezes, a mudança não é capaz de vir da própria pessoa que a necessita. Outra perspectiva, vinda de uma posição completamente diferenciada, é o motor para uma transformação de dentro para fora.

    Em uma dinâmica parecida com a de Gênio Indomável, filme em que Robin Williams também interpreta um professor, vemos as diferenças de comportamento e pensamento de Valerio e do rebelde Christian, cujas polêmicas dentro e fora do campo de futebol tornam-se tão fortes que uma intervenção educacional se mostra inevitável. Seu clube em Roma contrata Valerio numa tentativa de fazer o jovem se formar no colégio e mostrar à imprensa que seu declínio foi temporário; mas tal ato, que começa de forma teatral e artificial, vai aos poucos tomando uma forma de amizade e compreensão mútua.



    Mas se Gênio Indomável fala sobre um garoto inteligentíssimo que não lida bem com a vida, em Desafio de um Campeão o caso é um pouco diferente: Christian não consegue ter êxito nos estudos e desistiu do colégio por se considerar burro. No futebol encontrou o prestígio e a atenção que tanto queria, e é neste ponto que se encontra um buraco profundo que o filme vai aos poucos abordando: a perda precoce da mãe, a ausência afetiva do pai e a presença incessante de pessoas em sua casa. Tal presença, inclusive, incomoda não só a Christian como também o espectador. É ali que vemos o vazio existente em tantas figuras que pouco parecem se importar com o próprio protagonista. Christian sempre se encontra sozinho, como se fosse um fantasma em seu lar.

    A grande qualidade de Desafio de um Campeão está no modo como a educação mostra-se capaz de abrir novas portas que jamais seriam abertas antes sem este estímulo. O filme não trata tal aspecto tão a fundo, mas é muito aparente como Christian passa a se questionar internamente sobre suas escolhas a partir do momento em que passa a estudar regularmente com Valerio (após muita paciência do professor). Os empecilhos que antes eram apresentados pela própria equipe do garoto para que ele não estudasse vão se tornando meros coadjuvantes, e então o esporte e o suporte educacional andam de mãos dadas por boa parte da narrativa.

    Apesar de conter traços estereotipados, como na questão pessoal de Valerio com sua esposa e a arrogância de Christian com relação a garotas, Desafio de um Campeão traça um bom percurso que fala sobre muitas coisas: amizade, respeito com os outros e com si próprio e a valorização de suas próprias ideias (assim como de sua voz). Esta é uma história que já vimos e já ouvimos, mas que possui uma execução crescente pois a dupla de protagonistas é desenvolvida pacientemente, sem nunca perder o foco. Se por um lado o filme não surpreende em seus plot-twists, pelo outro ele é capaz de encantar com momentos perspicazes e naturais.

    Filme visto no 8 ½ Festa do Cinema Italiano, em agosto de 2019.
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