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    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
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    A vida longe da ficção

    por Barbara Demerov
    Ao espectador que já é familiarizado com o filme Boyhood, de Richard Linklater, provavelmente 17 Quadras trará a mesma sensação singular de estar tão próximo de um personagem e seu círculo de relacionamentos. Contudo, o diferencial no filme de Davy Rothbart é que ele é, na verdade, um documentário que acompanha uma família por completo, sem trazer romantizações e fantasias em sua linha do tempo. Não há espaço para ficção em 17 Quadras; e isso é tão doloroso quanto chamativo enquanto objeto de exposição de uma realidade que não é tão abordada no cinema.

    Acompanhando a família Sandford, que vive em Washington, o diretor registra boa parte das imagens ao longo de 20 anos, mas também cede a câmera para os próprios personagens filmarem a si mesmos, assim como os momentos mais íntimos em seu lar. Por isso, um dos aspectos mais interessantes de 17 Quadras (se não o mais) é o fato de, sozinha, a realidade da família formar um caleidoscópio de fatos, escolhas e consequências que criam por si só uma narrativa efetiva para o cinema -- e factual enquanto crítica social.

    Diferentemente da obra de Linklater, que tem em foco o processo de construção de um jovem adulto, vemos em 17 Quadras o processo de desintegração que o governo de um país pode causar pela simples negligência no acompanhamento das classes mais baixas. Mas, ao mesmo tempo em que o desinteresse do Estado torna-se o maior antagonista do filme, o amor familiar permeia todos os espaços possíveis. É claro que nada é perfeito -- e o fato de o diretor não se colocar enquanto narrador ou acompanhante daquele universo ajuda a dar a distância necessária para que vejamos os males da realidade --, mas existe muita troca e afeto entre os Sandford.



    Após dar atenção especial ao inteligente e prodígio Emmanuel, Rothbart não só o transforma no personagem que mais representa as diferentes gerações da família como também no símbolo da injustiça que rodeia as 17 quadras entre sua casa e o Capitólio norte-americano. Ao trazer no próprio título uma relação de distância que é curta e ao mesmo tempo longa, o diretor deixa nas entrelinhas os problemas sociais da vizinhança. E, por mais que eles não sejam inseridos de uma só vez, incomoda senti-los em paralelo ao amor daquela família.

    As passagens de tempo, súbitas, se encontram com diversos processos de cada personagem: temos a matriarca que sempre lutou contra o vício em drogas, os irmãos que perderam Emmanuel e criaram uma família e os netos e sobrinhos, que preenchem vazios e simbolizam o legado de um tio inocente. Há, também, a namorada que nunca se libertou da cruel interrupção, mas que encontrou outros tipos de amor e afeição nos Sandford. 

    No fim das contas, 17 Quadras não traz soluções ou um indício de esperança no cenário geral de assistência aos bairros e cidades que têm de lidar com violência diariamente, mas encontra, na força de vontade de cada indivíduo, uma forma de valorizar as pequenas vitórias. A obra se encaixa enquanto denúncia e homenagem, mas com bastante equilíbrio entre e um outro. E, no meio de tudo, existe a esperança.
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