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    Eté 85
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Eté 85

    Romances que transformam

    por Barbara Demerov
    Após adentrar em um drama sobre abuso e religião em seu filme anterior, Graças a Deus, o novo projeto do diretor François Ozon envolve o universo adolescente, permeado por paixão, desilusão e expectativas relacionadas ao primeiro amor. O cenário de Summer of 85 é propício para tudo isso ter ainda mais intensidade: a história se passa nas praias da Normandia, com dias repletos de sol e calor e o destaque para um casal que se forma a partir de uma eventualidade.

    O verão por si só já permite que a trama seja trabalhada com base num eventual fim -- especialmente com relação ao encontro dos jovens Alexis e David, cuja relação se equilibra entre amizade e romance, no estilo 8 ou 80. Alexis, que é salvo por David quando seu barco vira no mar, é "enfeitiçado" e se vê completamente amarrado a David num piscar de olhos. O roteiro de Ozon não possui delongas ao apresentar a relação, mas antes disso abre seu filme com um prólogo e a sombria narração de Alexis, que indica ao espectador uma trama de suspense.



    No entanto, o clima obscuro da cena de abertura se perde ao longo da narrativa, pois o romance e as intrigas que vão aparecendo no caminho do casal ganham boa parte da atenção do roteiro. Inclusive, tal introdução soa até como uma escolha inusitada do diretor, pois nada é o que parece ser num primeiro olhar. Só é por conta da narração de Alexis que o espectador já espera por algo trágico, pois a união dos dois jovens franceses em si não dá indícios de que algo do tipo está por vir. No entanto, apesar de nunca evoluir muito além do romance, a história entrega vários elementos que mantém a atenção sempre presente -- como no modo em que ambos se tratam e as mudanças repentinas que surgem.

    As atuações de Félix Lefebvre e Benjamin Voisin são as responsáveis por carregarem a trama de forma espontânea e até mesmo divertida, dando ênfase em cada fase do intenso romance. Se por alguns momentos há leves toques de mistério envolvendo a família de David, tudo se dissipa quando a dupla passeia pela cidade e troca momentos de afeto. A fotografia, que prioriza os tons quentes (que combinam tanto com a estação quanto com a história), também ajuda na imersão e ajuda a complementar os momentos em que palavras não são ditas.

    Porém, Summer of 85 perde um pouco de seu brilho por se afastar muito do prólogo no decorrer de seu desenvolvimento. Apesar de as trocas temporais funcionarem para manter o filme dinâmico e instigante, o desfecho dá a entender que o mesmo ciclo poderá se repetir, uma vez que o arco de Alexis parece dar voltas em si mesmo. Ao observar seu comportamento no início e no fim, não há mudanças muito chamativas e, ainda por cima, parece ter absorvido um pouco da personalidade encantadora de David. Diante de uma história que aborda o sentimento de posse, o final torna-se um tanto ambíguo: não dá para identificar se Alexis se libertou ou sucumbiu ao modo de vida que tanto lhe marcou.

    Filme visto durante o Festival de Toronto, em setembro de 2020.
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