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    Abigail e a Cidade Proibida
    Críticas AdoroCinema
    1,5
    Ruim
    Abigail e a Cidade Proibida

    Magia desorganizada

    por Sarah Lyra
    Em seu ato de abertura, Abigail e a Cidade Proibida apresenta algumas fragilidades, mas, de modo geral, consegue transmitir uma certa personalidade, suficiente para manter o espectador intrigado e na expectativa dos próximos acontecimentos. O que vem em seguida, no entanto, vai muito além do que se poderia esperar, e não no bom sentido. A confusão toma conta da tela em variadas formas: o roteiro tenta inserir reviravoltas a cada duas cenas; a montagem, durante as cenas de ação, se atrapalha para manter a continuidade; e as atuações prejudicam a pouca credibilidade restante no texto.

    Nem tudo é ruim, é claro. As particularidades do longa se manifestam positivamente em diversos momentos, mas os hiatos deixam evidentes a dificuldade do roteirista e diretor Aleksandr Boguslavskiy em fazer suas ideias funcionarem. Tomemos a caracterização dos personagens como exemplo. Quando Abigail (Tinatin Dalakishvili) descobre a região da cidade habitada por seres mágicos, somos apresentados a personagens de cabelos coloridos, figurinos com peças de couro e acessórios vintage. Embora a aparência colabore para a criação da identidade visual dos indivíduos, o conjunto parece não ter muita coesão, passando a impressão de que cada um daqueles seres pertence a um universo diferente, quando na verdade são parte de uma mesma comunidade.



    Os efeitos especiais também demonstram potencial criativo, mas não conseguem ganhar forma própria. Nas cenas de batalha, principalmente, onde os personagens precisam usar magia para se defender, as limitações técnicas se tornam aparentes e minimizam o impacto de algo que deveria parecer imponente. Um problema similar pode ser observado nos diversos objetos pessoais adotados por eles para invocar magia. Cada um tem um propósito específico e um poder diferente, mas as funções, assim com a hierarquia entre eles, não ficam claras. O roteiro até busca guiar o espectador nesse sentido, ao inserir uma cena em que um dos personagens dá uma aula para Abigail sobre o perfil de cada aparato, mas a interação soa excessivamente explicativa e, mesmo com o teor didático, não consegue elucidar as particularidades dos mecanismos.

    É no roteiro, portanto, que Abigail e a Cidade Proibida mais sofre. Além da já mencionada necessidade de inserir reviravoltas, Boguslavskiy recorre a soluções fáceis para impulsionar a trama. Assim, em vez de criar mistérios e questionamentos no espectador, o filme se torna bastante previsível em seu desenvolvimento. Nas poucas vezes que o realizador consegue criar, de fato, alguma incógnita, ele desperdiça a oportunidade de envolver seu público ao empregar um recurso antigo e pouco imaginativo, usado quando se tem dificuldades em inserir no roteiro situações que façam o espectador raciocinar: um personagem surge com a função de traduzir todas as informações exibidas em tela. Em Abigail, isso é feito com a versão infantil da protagonista, que surge em tela unicamente para representar o espectador ao fazer perguntas para o pai Jonathan (Eddie Marsan).



    Já o triângulo amoroso envolvendo Abigail, Bale (Gleb Bochkov) e Stella (Ravshana Kurkova) beira o cômico. O que dizer da cena em que Stella, incomodada com a recém-chegada de Abigail na comunidade, lança a clássica fala: "eu vejo como você olha para ela"? Há uma tentativa de sugerir um envolvimento entre os dois personagens que não faz sentido, já que eles tinham acabado de se conhecer e pouco tinham interagido até então. Aqui, é válido ressaltar que, apesar do texto ruim em mãos, os atores têm bastante dificuldade em construir qualquer tipo de nuance para seus personagens, com destaque para Bochkov, que sente a necessidade de esbravejar em praticamente todas as suas falas para expressar a raiva e frustração contidas em Bale. Dalakishvili, por sua vez, retrata Abigail com uma certa apatia diante das informações descobertas. A protagonista tem seu mundo virado de cabeça para baixo ao descobrir seus poderes e o papel do próprio pai na criação de um dispositivo importante para a trama, mas aceita os fatos como se estes não tivessem grande impacto em sua trajetória, abraçando o novo mundo e adotando sua população como aliados sem nenhum tipo de hesitação.

    É também curioso ver como Abigail consegue transitar facilmente por uma cidade que vive um regime totalitário, chegando até a invadir um prédio governamental sem nenhum tipo de obstáculo. Sempre com soluções convenientes, Abigail e a Cidade Proibida encontra seu desfecho dentro daquilo que já se espera, com base nos acontecimentos prévios, exibindo de maneira ainda mais recorrentes os problemas citados anteriormente, e mostrando que, apesar de um começo despretensioso com vislumbres de inovação, não consegue se sustentar dentro de sua própria ambição.
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