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    Casa
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Casa

    Dor e refúgio

    por Barbara Demerov
    Nenhuma família é perfeita, mas toda família tem uma história. A diretora Letícia Simões sabe disso muito bem e transporta em seu filme fragmentos universais que pairam sob sua mãe, sua avó e a si mesma: aqui acompanhamos a dificuldade que existe dentro de certos relacionamentos, a falha na comunicação, a frustração ao tentar amenizar os momentos mais difíceis... e o amor que permanece. Casa tem a presença de Simões constantemente frente à câmera, sendo essa uma direção participativa e que se conduz majoritariamente pela emoção, apesar de a técnica também ser bem executada.

    Documentários que possuem uma visão tão pessoal quanto emocional de um(a) diretor(a) para com seus personagens, de certa forma, andam em uma linha tênue – afinal, sua mensagem pode não se conectar com o público, que acompanha a história não mais que no período em que se senta na sala de cinema. No entanto, Casa consegue conversar (e muito bem) com qualquer pessoa que tenha tido uma avó afetuosa ou uma mãe cujo afeto é intercalado por cobranças.

    Com uma mãe de personalidade e ideais tão precisos quanto os seus (a diretora decidiu que não queria ser mãe aos 15 anos e saiu de sua casa, em Salvador, aos 16), é inevitável entender sua motivação para realizar este documentário. Simões aproveita toda a bagagem dentro de suas memórias de maneira sensível, ao mesmo tempo que extremamente pungente – são inúmeras passagens em que a câmera registra sérios desentendimentos entre a tríade de diferentes gerações, o que possibilita justamente essa abordagem tão próxima que faz o público pensar em vivências pessoais.



    Apesar da relação entre mãe e filha ser o maior foco de Casa, o conflito geracional também permeia pela narrativa criada pela diretora. A velha história de uma mãe querer seus netos e uma avó se surpreender com tatuagens está aqui. Além disso, após contar a história de sua mãe (seu casamento, divórcio, estudos e os problemas que vieram logo após), Simões narra acontecimentos marcantes da vida de sua avó (como, por exemplo, quando casou no Ano Novo para que todos os fogos de artifício fossem dedicados a ela). Entre essas histórias, também conhecemos um pouco mais da própria diretora quando a vemos diante da câmera reagindo (positiva ou negativamente) ao jeito intenso da mãe e ao carinho da avó. 

    Ainda há espaço para que narrações expliquem os paradeiros dos homens da família, mas eles nunca aparecem de fato. O que sabemos é o que é proferido da boca de cada uma, além de fotos guardadas e, claro, casas que marcaram a infância de Simões e sua família. O pai, o avó e até mesmo o ex-marido da diretora orbitam tanto em volta do documentário que, mesmo tendo parcelas significativas, tornam-se arestas que não se encaixam com a força do trio principal – além do fato de a montagem inseri-los de uma forma um tanto abrupta, que causa estranhamento e uma quebra no ritmo próximo ao fim.

    A história de Casa, afinal, é sobre as mulheres que se mantiveram unidas apesar de serem muito diferentes – e ainda com inúmeros problemas que seriam suficientes para separá-las. Esta é uma história universal que mistura mágoa com carinho, aconchego com afastamento. Uma referência cinematográfica de nossas vidas reais.

    Filme visto no 8º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, em junho de 2019.
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