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    Viver para Cantar
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Viver para Cantar

    Arte e superação

    por Barbara Demerov
    O filme do chinês Johnny Ma se inicia com tanto realismo que mais parece ser um documentário. Mas isso é apenas num primeiro momento, durante a cena em que uma trupe teatral se apresenta para alguns jurados. E, por mais que Zhao Li, gerente da trupe, pareça ser uma mera peça que acompanha o longa do início do fim, na verdade é justamente o que o move por completo.

    O diretor se contenta em explorar o máximo daquele grupo de pessoas que vive à margem da sociedade e, ao mesmo tempo, traz alegria e cultura para quem precisa. É nesta dualidade dentro da mesma situação que Viver para Cantar evolui de retrato realístico sobre pessoas que ganham apenas o silêncio do governo para um drama familiar poderoso, mesclando o dia a dia artístico com medos e sonhos de uma forma extremamente natural, que cativa e nos faz refletir sobre a resiliência do ser humano.

    Literalmente vivendo em meio a demolições, o grupo encabeçado por Zhao Li não tem plena noção do que os espera, apesar de conviver com a poeira, o barulho e os entulhos do que o governo vem fazendo há um tempo. Apesar de terem muita dificuldade para se manterem, o público fiel da trupe comparece aos seus shows mesmo debaixo de chuva. Sendo assim, como se o simples ato deles estarem ali, em uma casa que ainda permanece de pé, fosse um ato de protesto - ainda que inofensivo. Por meio de transições que refletem a austeridade do modo de vida dos artistas com a beleza de seus espetáculos, é muito interessante ver como tudo no filme de Ma flui sem a menor dificuldade.



    Com a adição de um drama familiar que não soa forçado ou incluído fora de hora, através de Li e a sobrinha que criou desde pequena, Viver para Cantar aproveita para inserir questionamentos relacionados a seguir a tradição da família ou seus próprios sonhos. Tudo isso de maneira uníssona ao drama interno de Li e a agonia de não saber a quem recorrer para que sua propriedade não seja destruída por completo. Ao mesmo tempo que a protagonista se torna refém da omissão da prefeitura, o possível fato da sobrinha seguir em outra carreira também pode resultar no fim da trupe - e todos os sentimentos e preocupações são muito bem expostos pela intérprete da personagem, Zhao Xiaoli.

    Johnny Ma dirige com um olhar que torna o filme essencialmente observativo, sem a necessidade de adicionar cenas com mais ação em diálogos ou decisões de personagens. Toda a energia do filme é canalizada pela líder daquele grupo e a ação que nasce de sua força é tênue, interessante de se acompanhar. Próximo de finalizar sua história, Ma faz algo surpreendente: como mais uma camada de sua abordagem intimista do teatro e daquelas pessoas que vivem do que amam fazer, ele adiciona um número fantasioso em meio a escombros, destacando a capacidade do ser em dançar, cantar ou simplesmente relembrar o passado para que a vida possa seguir em frente da forma mais bela possível.

    Filme visto na 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2019.
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