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    Longe
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    Longe

    Unicamente

    por Sarah Lyra
    O Cinema é uma arte coletiva. Ao contrário de outras áreas que também trabalham com imagem, como a fotografia e a pintura, o fazer cinematográfico raramente é solitário. Por isso, assistir a Longe se torna uma experiência por si só, independente de qualquer juízo de valor. O cineasta letão Gints Zilbalodis não apenas dirigiu como também roteirizou, produziu, fotografou, montou, e compôs a trilha sonora. Contrariando todas as expectativas, Zilbalodis executa com maestria as múltiplas funções e entrega uma obra profundamente madura e autoral.

    Dividida em quatro capítulos, a trama acompanha a trajetória de um garoto que, depois de acordar preso a um paraquedas caído sobre uma árvore, precisa voltar para casa através de um percurso habitado por animais e uma figura fúnebre — e por vezes abstrata — que insiste em persegui-lo. Sem recorrer a qualquer tipo de diálogo, Zilbalodis investe em um apurado senso de estética, que, embora minimalista, surpreende pela variação cromática aplicada em composições fotográficas abundantes em perspectiva, diagonais e reflexos.


    É interessante notar também como Zilbalodis transita bem entre o sombrio e o iluminado, ora empregando cores lúdicas e aliviantes, ora provocando uma opressora sensação de ansiedade com cenários carregados em névoa e mistério, que nos fazem temer pelo destino do protagonista, de quem nada sabemos. Essa aposta no visual da animação se mostra particularmente acertada por conta da característica poética e metafórica da narrativa, capaz de provocar inúmeras interpretações a partir da relação do garoto com os seres que cruzam seu caminho, principalmente a sombra que pode ser enxergada como medo.

    Note a poderosa rima visual utilizada na cena em que o menino é visto dormindo cercado de gatos pretos, enquanto o pássaro amarelo também se destaca em meio a um grupo de pombas brancas, deixando em evidência o contraste e a solidão das duas figuras principais em suas respectivas jornadas. Não sabemos de onde o garoto e o pássaro vieram, ou onde precisam chegar, quando o roteiro nos apresenta à natureza fantástica da trama, fica claro que a trajetória é o mais importante e não há necessidade de fazer perguntas — ou de se obter respostas. Outra rima, dessa vez temática, é empregada pelo cineasta quando o pássaro e o garoto salvam um ao outro em circunstâncias similares, no primeiro e último capítulo do longa, selando não apenas a amizade entre os dois, mas também a identificação recíproca diante das dificuldades postas.


    Em uma narrativa assumidamente lenta, Zilbalodis costura de forma impecável não só os percalços de cada personagem, como o ritmo oscilante entre seus cumes, embalados por uma trilha sonora eloquente e acionada de forma pontual para gerar sensações específicas. Engenhoso, Longe frequentemente atesta a qualidade cinematográfica de seu cineasta solitário e abre precedentes para as possibilidades do Cinema.

    Filme visto no 27º Anima Mundi, em julho de 2019.
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