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    Soldados da Borracha
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Soldados da Borracha

    A fabricação do patriotismo

    por Bruno Carmelo

    Qual é o elemento mais importante para vencer uma guerra? Armas, homens treinados, estratégias avançadas? Para um entrevistado deste documentário, a resposta é a borracha. Este produto, que faltava aos americanos durante a Segunda Guerra Mundial para a confecção dos pneus, levou o governo dos Estados Unidos a oferecer imensas vantagens financeiras a Getúlio Vargas, contanto que exportasse uma quantidade expressiva de borracha. Nascem assim os “soldados da borracha”, cinquenta mil homens enviados ao norte do país para extraírem o látex das seringueiras. Estes homens partiram munidos de amor à pátria e de contratos que prometiam dinheiro, pensões à família e tratamento especial durante a viagem.


    O filme dirigido por Wolney Oliveira se dedica a explorar uma farsa, ou ainda os crimes de guerra cometidos entre conterrâneos em nome de certa imagem do patriotismo. Neste sentido, aproxima-se do recente Soldados do Araguaia, que também comprovava a exploração dos nossos homens pelo governo, sob pretexto da guerra. Os soldados da borracha encontraram apenas doença, comida escassa, animais selvagens, trabalho análogo à escravidão. 60% deles morreram, mas a História se esqueceu destes homens que não estiveram no campo e batalha - pelo menos, não no campo de fato, mas em outra guerra, simbólica. No período em que o Brasil apaga e nega suas falhas históricas, conversar com estes homens idosos, escutar de suas próprias vozes a humilhação enfrentada possui um valor inegável de documento.




    Curiosamente, Soldados da Borracha fornece um discurso típico dos filmes-denúncia, porém sem o tom de denúncia. Os homens e mulheres entrevistados narram suas experiências como causos de um passado distante, já despidos de raiva ou indignação. Um ou outro soldado se manifesta com furor, mas no geral, estas pessoas não esperam mais qualquer tipo de mudança na versão histórica dos fatos, narrando com uma placidez espantosa os abusos do governo, como se fossem de certo modo inevitáveis ou recorrentes. Além de expor a (des)humanidade em tempos de guerra, o documentário também sublinha, em segundo plano, a sina de uma população vulnerável que sequer se enxerga representada por qualquer forma de política.


    A placidez da narrativa é reforçada pela estética contemplativa, atípica para um projeto de natureza política. A explicação histórica se faz de modo didático, como quem narra fatos conhecidos por todos. As entrevistas ocorrem sob luzes superexpostas, em cores um tanto desbotadas e uma textura ultra nítida da tecnologia digital, conferindo ao conjunto certa aparência de neutralidade, de impessoalidade. A indignação jamais se transmite à estética, visto que a direção se comporta como boa interlocutora, escutando as histórias sem forçar contradições ou rememorar de traumas. Munido de poucos documentos, o discurso baseia-se na prova pela reincidência: após três ou quatro soldados narrarem as doenças e péssimas condições de higiene que enfrentaram, acreditamos que aquilo de fato aconteceu. A repetição torna-se ferramenta para construção da verdade, embora torne o ritmo um pouco arrastado.




    Nos quinze minutos finais, Soldados da Borracha ganha uma força impressionante. Após uma grande parte majoritariamente descritiva e verbal, o filme enfim estabelece uma ponte direta com o presente, quando passa a discutir a batalha jurídica para indenizar os poucos soldados da borracha ainda em vida. Neste momento, o documentário apresenta verdadeiros embates entre ideias contrárias, no caso, a tese que defende uma reparação simbólica e rápida contra a tese de que seria melhor continuar lutando por uma indenização substancial, ainda que póstuma. As imagens tornam-se mordazes, expondo contradições e falhas de raciocínio. Neste segmento, o filme adquire uma complexidade ímpar, que serve ironicamente para tornar as imagens antecedentes ainda mais plácidas em seu agenciamento convencional de depoimentos e material de arquivo.


    Mesmo assim, o resultado transparece um humanismo notável, sinal da proximidade que o cineasta demonstra com as gerações mais antigas (algo visto igualmente em Os Últimos Cangaceiros) e da preocupação em descrever estas pessoas por suas vestes, sua comida, seus hábitos diários. O diretor quer de fato conhecer estes homens, dar voz a sujeitos invisíveis da história, sem se colocar acima dos personagens. Ainda que humilde, a abordagem ressalta este patriotismo de fachada que ressurge nas democracias frágeis de tempos em tempos para justificar atrocidades em nome de um suposto bem maior.


    Filme visto na 24ª edição do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários, em abril de 2019.

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