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    Ziva Postec. A Montadora por Trás do Filme ‘Shoah’
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Ziva Postec. A Montadora por Trás do Filme ‘Shoah’

    A montagem como criação

    por Bruno Carmelo

    Nos primórdios do cinema, alguns teóricos defendiam que a montagem constituía a essência do cinema, sua especificidade em comparação com as demais artes. Afinal, o trabalho de iluminação existia na fotografia, a atuação vinha do teatro, o roteiro era herdeiro da literatura, o som decorria da música. Por volta da metade do século XX, o pensamento autoral passou a considerar a figura do diretor como principal criador, e o triunfo deste raciocínio fez com que se conheça, em nossos tempos, muito pouco sobre os montadores dos principais filmes da cinematografia mundial. Neste contexto, Ziva Postec - A Montadora por Trás do Filme Shoah reforça o caráter da montagem como função criativa no cinema.


    A diretora Catherine Hébert jamais olha para a montadora israelense como um ícone. A apresentação de Ziva Postec é das mais interessantes: vemos primeiro sua casa vazia, os arquivos organizados nas estantes, a disposição dos móveis. Em seguida, a moradora encontra alguns documentos sobre o filme Shoah e, no meio dos papéis antigos, se depara com um currículo que permite compreender, de modo frio e analítico, o percurso de Postec. Ela cita os diretores com quem trabalhou (Alain Resnais, Orson Welles) sem se vangloriar, apenas como experiências antigas. Por mais excepcional que tenha sido a montagem de Shoah, projeto de doze anos de concepção e 9h30 de duração, este projeto jamais é visto como uma obra de gênio, e sim como fruto de um esforço monstruoso, de cinco anos e meio de montagem.




    Além de discutir o filme dirigido por Claude Lanzmann e a carreira da montadora, o documentário não deixa de ser um estudo sobre o cinema - não uma homenagem, não uma carta de amor, como tanto se espera dos cinéfilos, e sim uma verdadeira análise da montagem enquanto instrumento de linguagem. Tendo recebido 350 horas de gravações, sem qualquer direcionamento para o agenciamento deste material, Ziva Postec explica como criou conexões, como encontrou ritmo, qual a importância das vozes, e principalmente do silêncio, num projeto tão massivo. “Como tornar suportável o insuportável?”, questiona um pesquisador. Em última instância, este era o verdadeiro desafio da montadora. Trata-se de um debate sobre a representação: para mostrar o horror do Holocausto, é preciso fazer um filme igualmente horrível? Como retratar a experiência de um campo de concentração para quem nunca esteve lá?


    Em paralelo, o projeto possui seus méritos estéticos próprios. Hébert encontra soluções poéticas e respeitosas para abordar momentos de dor - a perda do marido de Postec, as brigas com Lanzmann, os depoimentos do genocídio -, através das ondas do mar à noite, dos locais abandonados de Israel, e mesmo das fachadas de prédios. A cineasta faz bom trabalho ao dissociar som e imagem, combinando falas em off a cenas que produzam novos significados e evitem a reincidência do discurso. Deste modo, termina por dialogar com a estética de sua biografada: depois de muito ouvir sobre o silêncio, sobre o ritmo contemplativo e sobre a “impossibilidade de fazer um filme apenas com entrevistas”, nas palavras de Postec, Hébert efetua um uso igualmente apurado destas questões em seu próprio documentário. O filme jamais pretende ter a relevância histórica de Shoah, é claro, mas demonstra uma forma de aprendizado através do cinema.




    Ziva Postec - A Montadora por Trás do Filme Shoah se complexifica ao investigar a preservação das películas, registrando a restauração de todo o material bruto de Shoah. Um pesquisador nos lembra que o filme não pode ser resumido a um produto final, projetado numa tela: ele seria um processo, uma escolha constante entre o que deve ser mantido e o que precisa ser excluído. Ao enxergar o cinema como sistema coletivo, ao invés da emanação do talento direto de um diretor, o documentário presta um belo serviço neste embate de narrativas sobre o poder criativo do cinema. A noção de processo permite valorizar a montagem, a luz, o som e tantos outros aspectos considerados popularmente como “técnicos”. Ziva Postec lembra que, na estreia de Shoah nos cinemas, Lanzmann não queria a montadora ao seu lado: ele preferia brilhar sozinho, como o único autor da obra. Ela ficou brava, ressentida, e depois minimizou os fatos. “Não me importo”, lembra. “Eu sei o que fiz, sei do trabalho que tive”. O documentário se encerra com o elogio ao trabalhador da arte, à equipe anônima em detrimento dos gênios nucleares citados pelos livros.


    Filme visto na 24ª edição do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários, em abril de 2019.

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