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    Dorival Caymmi - Um Homem de Afetos
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Dorival Caymmi - Um Homem de Afetos

    O que o vento não levou

    por Barbara Demerov
    "Ele é como um rio (...) Enquanto eu existir, existirá Caymmi", profere Gilberto Gil, sorrindo, nos minutos iniciais de Dorival Caymmi - Um Homem de Afetos. Tais palavras, não só as dele como dos filhos e também de Caetano Veloso, expõem um carinho sem dimensão destas personagens para com o artista. O documentário de Daniela Broitman não busca inventar uma nova estrutura que repasse por momentos-chave da vida de uma figura que marcou gerações, e propõe um passeio leve por sua vida; mas não consegue sair do "lugar comum" por enaltecer muito mais do que humanizar Caymmi.

    Não que ele não mereça tal reconhecimento. Nem de longe. O documentário de Broitman já é o terceiro projeto focado na vida e obra do cantor e compositor baiano, responsável por dar vida a diversas canções icônicas – inclusive O Que é Que a Baiana Tem?, interpretada por Carmem Miranda. Permeada por depoimentos variados e bem costurados, a obra capta o espírito original e irreverente de Caymmi através dos olhares e vivências de terceiros.

    O fio condutor de toda a narrativa – e o que mais aproxima o documentário de ter um toque bem pessoal – é uma entrevista, até então inédita, que Caymmi concedeu em 1998. É interessante ver como a escolha da diretora em privilegiar boa parte da entrevista funciona especialmente por intercalar estes trechos com os depoimentos Nana, Danilo e Dori Caymmi. Os filhos do músico são a principal ponte que nos une a Dorival e nos trazem suas visões diversificadas sobre a mesma pesosa. Ainda mais por serem sua extensão viva, é comovente ver o brilho no olhar de um filho enquanto ele relembra o modo do pai tocar o violão – assim como é necessário saber que a família sofreu com o alcoolismo do mesmo.



    Não é necessariamente um problema tendo em vista sua importância para com a cultura popular brasileira (especialmente com tudo o que Caetano e Gilberto têm a dizer), mas existe uma certa pressa em tratar dos defeitos de Caymmi no último terço da narrativa. Nana Caymmi é a personagem que mais fala abertamente sobre as dificuldades no relacionamento com o pai, o problema com a bebida e as brigas que o artista tinha com sua esposa; todos estes pontos os mais humanos e reais, que definitivamente elevam o documentário para além de ser uma homenagem comum a um homem que fez história.

    Há passagens que mostram Dorival participando de filmes como Capitães de Areia (que surpreendentemente marcou o cinema russo ao ser traduzido para a língua), e outras que tentam "explicar" seu jeito mulherengo de ser – incluindo as idas e vindas com sua esposa Stela e um mistério acerca de Carmem Miranda, que ninguém sabe se algo de fato aconteceu. A montagem do documentário é fluída e vai pavimentando, aos poucos, um desfecho romântico e, sobretudo, poético, que não apela para o sentimentalismo. Quando vemos trechos de Dorival cantando alguns clássicos, tudo fica claro: a melhor trilha-sonora, para ele e sua família, foi sua própria vida.
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