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    A Inventora: À Procura de Sangue no Vale do Silício
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    A Inventora: À Procura de Sangue no Vale do Silício

    O gênio era uma farsa

    por Bruno Carmelo

    A introdução deste documentário se apressa em efetuar duas constatações que permearão toda a narrativa: a primeira, de que a jovem Elizabeth Holmes foi considerada um prodígio da tecnologia, a nova Bill Gates ou Steve Jobs, a jovem de 19 anos em que todos apostavam para revolucionar o campo da medicina preventiva, e segundo, de que as expectativas foram frustradas pela descoberta de que os avanços tecnológicos prometidos pela empresária eram, no melhor dos casos, exagerados, e no pior dos casos, totalmente falsos. No final, os números e dados foram forjados para criar um clima de otimismo capaz de encorajar novos investimentos. A Inventora: À Procura de Sangue no Vale do Silício se constrói em torno da dicotomia do médico e do monstro, do gênio e da fraude.

     

    De maneira simétrica, a metade inicial do filme se destina a compreender o mito, enquanto a segunda trata de desconstrui-lo. Por que tantas pessoas apostaram na Theranos, empresa bilionária de Holmes, sem terem qualquer prova da eficiência de seus estudos? Através de materiais de arquivo, animações e narração didática, o diretor Alex Gibney tenta explicar a sociologia do empreendedorismo, ou seja, como a impressão de sucesso se torna essencial para atingi-lo. Holmes anunciou descobertas que não tinha feito, vendeu produtos que não sabia como produzir. Através da ideia da máquina “Edison”, capaz de diagnosticar 200 doenças em poucos minutos, a partir de uma única picada no dedo, ela se apresentou enquanto a mulher desbravando um território de homens, a start-up desafiando grandes corporações, a jovem persistente diante de tantas portas fechadas.


     


    A maior astúcia deste documentário é perceber em que medida a impressão de genialidade está associada ao marketing, especialmente no século XXI. Embora a protagonista tenha sido condenada pela justiça, enfrentando a falência da Theranos posteriormente, ela demonstrou um talento excepcional na arte da autopromoção, transformando dificuldades em virtudes agradáveis ao mercado. De acordo com as divulgações da empresa, o fato de os resultados da Edison não serem apresentados implicava na existência de algo muito precioso a esconder; as acusações de jornalistas contra a eficácia da máquina significavam que este era o caminho certo por incomodar os poderosos; o fato de executarem exames de sangue em máquinas tradicionais implicava uma preocupação extra com a fiabilidade dos resultados.

     

    Erros foram transformados em desafios a vencer, impossibilidades físicas foram encaradas como uma necessidade de inovar. O linguajar da superação pessoal, o imaginário da self-made woman e a vontade de acreditar se sobrepuseram aos fatos. Quando a representação se sobrepõe ao representado, quando se privilegia a imagem aos fatos, o caso de Holmes se torna “uma fábula de alerta sobre os perigos dos nossos tempos”, como lembra a narrativa. O documentário denuncia não exatamente uma mulher farsante, que colocou em risco a vida de milhões de norte-americanos com resultados falsos de exames médicos, e sim a fábrica de ilusões por trás do otimismo conquistador do mundo dos negócios. “Fake it until you make it”, ou seja, “finja até conseguir”, é o lema repetido algumas vezes durante a narrativa. Para Gibney, este pensamento serve de motor a toda a tecnologia norte-americana, pelo menos desde Thomas Edison e a invenção da lâmpada incandescente.

     

    A segunda metade da narrativa se dedica então à queda de Holmes: as primeiras acusações, a paranoia, a intimidação, o mal-estar dos funcionários, os processos na justiça, o uso da mídia por Holmes na intenção de sustentar a sua marca. Se a parte inicial se anunciava como farsa, este segmento investe no suspense, com direito a frases acusadoras, música de tom policialesco, narração informativa sobre as manipulações dentro da Theranos. Gibney começa a desenhar a tese de que Holmes não possuía necessariamente más intenções, e talvez apenas vivesse numa bolha de autoilusão, acreditando que o fim justificaria os meios, ou seja, o tratamento abusivo de funcionários e detratores seria o preço a pagar pela conquista dos exames de sangue pela máquina Edison. Questiona-se a moralidade do ideal voraz e capitalista de sucesso a qualquer preço.


     


    Mesmo que desempenhe com clareza a tarefa de constatação e denúncia, o diretor transparece algumas limitações de ordem da construção cinematográfica. Ao longo de duas horas, ele começa a repetir imagens, reutilizar materiais promocionais da Theranos e extrair novos trechos das mesmas coletivas de imprensa lideradas pela empresária. Talvez alguns trechos sejam ressignificados ao serem apresentados uma nova vez, em contexto distinto, mas de modo geral o acervo imagético se torna mais pobre conforme o filme avança. É compreensível que o tema de patentes e licenças médicas seja um tanto árido para o público médio, porém Gibney transparece suas limitações ao intervir com narrações didáticas sempre que o material de arquivo não consegue elucidar, por si próprio, algum conflito específico da trajetória de Holmes.

     

    Além disso, talvez pela vontade de evitar o maniqueísmo, o cineasta deixa de confrontar Holmes pela responsabilidade de seus atos ao privilegiar a tese da desconexão com a realidade ao invés da cobiça e do egoísmo. Existe certa condescendência ao simplesmente suspender a conclusão, avisando muito rapidamente ao espectador que a inventora e Sunny, seu sócio, foram condenados na justiça, sem fornecer detalhes do processo nem das pessoas diretamente afetadas pelos diagnósticos errados da Theranos. Para um documentário que dedica duas horas inteiras à construção e desconstrução dos simulacros pós-modernos, o fato de minimizar o aspecto humano e o pós-fraude soa bastante questionável.

     

    Estas escolhas podem ser compreendidas pelo fato de que o filme está muito mais preocupado em efetuar um trabalho jornalístico do que artístico. Gibney impressiona por seu jornalismo investigativo, mas não pela função de cineasta, cuja responsabilidade seria de desenvolver uma uma obra de arte. Neste projeto, as imagens servem principalmente para reforçar o som (dos depoimentos, das imagens de arquivo, da trilha sonora), sem transmitirem um posicionamento via enquadramentos, ritmo, luz. Para A Inventora: À Procura de Sangue no Vale do Silício, os méritos da investigação deveriam minimizar o agenciamento esquemático das imagens. Caso se arriscasse na construção artística, Gibney poderia transmitir suas reflexões pessoais de modo muito mais potente, sem se tornar refém das falas de terceiros. No entanto, neste projeto, o conteúdo se sobrepõe à forma e, assim como para Holmes, o fim justifica os meios. Existe um perigo ontológico considerável ao instrumentalizar o documentário por seu caráter revelador, sua relação com a “verdade”. Os melhores filmes ainda são aqueles que nos instigam a pensar, ao invés de nos dizer o que pensar.

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